Conversa entre Leda Maria Martins e Eduardo Oliveira
Eduardo David de Oliveira: Como a rainha está presente, é a rainha quem deve sempre começar.
Leda Maria Martins: Obrigada, amor. Boa tarde, gente! Vamos cantar um dos nossos cantos de entrada, pedindo licença?
[Leda canta.]
É um novo dia,
É um novo dia,
Deixa o dia alumiar.
Eu peço licença,
Com licença,
Deixe o meu gunga raiar.
Muito obrigada! Eu só posso agradecer.
[Leda canta.]
Ô, Guiné, Guiné.
Zambi, pague, eu agradeço.
Zambi, pague, eu agradeço.
Ô, Guiné.
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai.
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai.
Agora um agradecimento muito especial. Vocês se lembram do filme Nunca te vi, sempre te amei? É antigo, mas é como eu me sinto em relação ao Dudu. Primeiro, tive o prazer de conhecer os textos dele, e foi um encanto, porque de repente encontrei uma pessoa com um conhecimento muito vasto da filosofia, das culturas negras, dos pensamentos que herdamos de África e aqueles que constituímos e construímos nas terras das Américas. E me espantei. Espantei-me por não ler Eduardo há mais tempo. Cada vez fico mais fascinada, não só pela expansão do conhecimento que ele nos traz, mas pelo modo como elabora esse conhecimento.
Intitulei o meu ciclo na Cátedra FGV Pequena África de Nzilas D’Ingoma – Os Reinados Negros e este diálogo, de Filosofias da ancestralidade, uma ecologia do sagrado, que é um modo de reverenciar Eduardo. Ele tem uma elaboração fantástica sobre a ancestralidade a partir de uma concepção que é mais do que filosófica, é uma construção epistemológica no sentido mais pleno dessa palavra.
Gostaria que vocês recebessem comigo Eduardo Oliveira, que é um Babalawô, com o cântico de saudação dos Reinados:
[Leda canta.]
Oi, com licença.
Oi, com licença.
Entre tambores e gunga, ai, ai, ai.
Quero pedir sua benção.
Oi, com licença.
Ei, com licença.
Entre tambores e gunga, ai, ai, ai.
Quero pedir sua benção.
Eduardo David de Oliveira: Se recebo a benção, abençoo de volta com os donos do dia, os donos do Sol, os donos da rua, pedindo licença a quem é de caminhada. Estamos aqui numa espécie de encruzilhada, entre a biblioteca e a rua. E estou aqui na presença de uma rainha, e não é todo dia que isso acontece. Para a minha vida, esse encontro com Leda é um grande acontecimento.
Agradeço-lhe muito pelo convite e acolhimento e o recebo com akan – o coração – aberto, o ori – a cabeça – aberto, o eni – o espírito – aberto e o bará – o meu corpo – aberto. Desejo que tenhamos um lindo caminho, sempre aberto, sempre em irê, sempre positivo, sempre feliz, com saúde, prosperidade, generosidade e alegria. Peço a bênção a quem é de bênção. Estou emocionado.
Lembrei-me agora da história de Oxum, que é essa divindade do panteão iorubano que vive em terras brasileiras, em Salvador, por isso diz-se que a cidade é de Oxum. Ela é de toda a cidade, ela é de todo lugar. No primeiro tempo, quando Olodumarê, a nossa divindade criadora, criou o Universo e o mundo inteiro, havia equidade. Depois, ele criou duzentos orixás de um lado e duzentos de outro. Criou a humanidade, os animais, a flora. Todos tinham o que precisavam para viver com dignidade, satisfeitos e felizes. A fome de pão e a fome de beleza estavam saciadas porque havia equidade, eram equânimes os seres.
No entanto, parece que sempre há aquele e/ou aquela que quer um privilégio a mais, que não basta estar saciado da fome, quer ter um pouco mais de alimento. E esse ser passou a abocanhar o que não era dele, o que não era dela, causando um desequilíbrio na comunidade, que foi se espalhando como uma praga. Surgiram os abusos, as assimetrias de gênero, de raça, de origem, sociais. Surgiram, então, as maldades, que conhecemos tão bem.
Logo, sentiu-se a necessidade de mandar um mensageiro, uma mensageira, para trazer Olodumarê, a divindade criadora de todos os seres – conhecida também como Olorum, aquele que vive depois do Sol, além do Sol –, de volta, para que ele restaurasse o equilíbrio dinâmico inicial, aquela equidade que compunha a criação dele. Mas quem conseguiria chegar até Olodumarê? Quem conseguiria atravessar o espaço sideral, passar pelo Sol e finalmente encontrá-lo para trazê-lo de volta? Era Exu quem poderia fazer isso e ele já tinha alertado Olodumarê sobre o problema.
Olodumarê respondeu:
— Não criei nada disso. O problema não é meu. Criei o suficiente para todo mundo viver em abundância, em equidade e feliz. Resolvam vocês o problema.
No entanto, eles não conseguiram resolver. Tentaram mandar mensageiros, os mais diversos. Primeiro, mandaram vários pássaros. Alguns conseguiam alcançar o espaço sideral, mas morriam de frio. Os mais fortes, que conseguiam ir além, eram castigados, desintegravam-se ao se aproximarem do Sol. Sábios não conseguiram chegar. Foi um grande desespero, porque o desequilíbrio, a violência, a fome, a seca, a iniquidade, o racismo, o sexismo, o patriarcalismo aumentaram.
Nada mudava, as coisas só pioravam. Foi então que Oxum disse:
— Vou falar com meu pai Olodumarê. E todos riram, pois Oxum era a orixá mais bonita, mas também a mais “cheia de dedos”, mais cheia de “não-me-toques”.
Eles responderam:
— Como assim, Oxum? Você, que gosta do palácio, das belas roupas, das joias, vai atravessar o Universo inteiro?
Ela insistiu:
— Eu vou.
Estamos aqui numa espécie de encruzilhada, entre a biblioteca e a rua. E estou aqui na presença de uma rainha, e não é todo dia que isso acontece. Para a minha vida, esse encontro com Leda é um grande acontecimento.
Então, ela adquiriu a sua forma pavoa e começou a sua aventura. É importante explicar que ela não se transformou em pássaro, porque ela é também um pássaro, no caso uma pavoa. Assim como Iansã é uma búfala e uma borboleta. Todos riram novamente, porque sabiam que o pavão tinha um voo baixo e rasteiro.
Mas ela, desajeitada, alçou voo, primeiro rasante, depois conseguiu subir mais, vencendo os limites, indo além da expectativa que recaía sobre ela, até que sumiu da vista de todos que estavam no Aiê, isto é, na Terra. Quando alcançou o espaço sideral, com muito vento e muito frio, passou a se retorcer. O bico dela ficou retorcido, e ela, encruada. Com muito esforço, ultrapassou esse espaço, dirigindo-se ao próximo grande desafio, que era o Sol. Perto dele, tudo foi ficando mais difícil, ela estava se desfalecendo, a cabeça estava em sangue e brasa, ela estava toda queimada. As suas penas ficaram absolutamente pretas, perdendo o colorido do pavão. No entanto, ela insistiu, pois olhava para a comunidade e a via se acabando, já que, como castigo, Olodumarê havia retirado os feixes de água, a chuva que caía sobre a Terra. Sem a chuva, faltou alimento, e as pessoas pararam de fazer oferendas aos orixás, que também começaram a sofrer. Estava difícil respirar.
Olodumarê observava tudo, pois vivia além do Sol. Ele não reconheceu aquele pássaro que se aproximava, não sabia quem era. Próxima ao Sol, Oxum não aguentou mais e morreu. Ela despencou. Mas Olodumarê a acolheu em seu colo. Ele, então, olhou para aquele pássaro horrendo, feio, queimado, castigado, retorcido, sedento, repugnante, cheio de feridas e, por misericórdia, soprou nas narinas dele, que voltou à vida.
Oxum disse:
— Peço misericórdia, meu pai. Ago, lhe peço misericórdia. Minha comunidade está morrendo. Precisamos dos feixes de água para a vida voltar. Precisamos da sua intervenção.
Ele respondeu:
— Calma, filha, quem é você?
— Ô meu pai, sou sua filha, Oxum.
— Mas Oxum você não é. Criei Oxum, a mais bela das criaturas. Demorei muito tempo esculpindo quem seria Oxum: o segredo das águas das cachoeiras, da superfície dos rios caudalosos, dos rios pequenos, dos
riachos, das lagoas. Você não pode ser ela.
— Meu pai, eu sou Oxum.
— Ô minha filha, eu criei tudo. Você é muito feia para ser...
Ela o interrompeu, dizendo:
— Babá, não tenho tempo para discutir identidade e beleza agora. Preciso voltar.
E foi pela atitude dela que ele a reconheceu:
— Você é Oxum. Esta é a atitude que criei.
Mais por ela do que pela humanidade, ele lhe entregou os feixes da água. É por isso que Oxum é a dona da chuva. Então, ela voltou para o Aiê, saiu do Orum, de onde ela não conseguiu passar, porque o espaço do mistério mais misterioso, o Olorum, não pode ser acessado, vivemos por conta dele.
Em seu retorno, Oxum sentiu muita fome, por isso comeu o resto dos animais que tentaram chegar ao Olorum e ficaram pelo caminho. Foi assim que ela se transformou num urubu. Quando chegou à comunidade, aconteceu o mesmo fenômeno. Antes haviam rido de Oxum, dizendo que, tão cheia da beleza, ela seria incapaz de fazer a viagem. Quando voltou, riram da feiura de Oxum, não a reconheceram. Ela, mais uma vez, não ligou para a crítica. Fez o que tinha que fazer, distribuiu os feixes de água pelo céu, a água caiu na terra, fertilizou-a. Logo, a floresta voltou a
crescer, os animais passaram a comer, os sacrifícios para os orixás voltaram a ocorrer, restabeleceu-se a ordem. Restabeleceu-se a possibilidade de equidade.
Essa transformação do pavão em urubu indica que o valor de beleza e estética de um orixá é o cuidado com a sua comunidade. A atitude em favor do bem viver da comunidade foi o que fez de Oxum uma rainha, nesse caso a rainha das águas. O reino de Osogbô está sob a tutela dessa rainha.
A estética, portanto, não é um deleite particular. Estou diante de um quadro de qualquer pintor e tenho o meu deleite pessoal de transcendência. Saio da terra, do chão, fico com a minha subjetividade totalmente encantada. Isso é um exercício importante.
Quem de nós já não viveu isso? É fundamental e é lindo. Mas o princípio de uma estética negro-africana, nesse caso, está um pouco além, pois está ligado diretamente ao bem viver, que precisa ser belo. É preciso estar saciada a fome de pão, mas também a fome de beleza. A beleza não é uma coisa que eu possa optar, um elemento a mais. A beleza é constitutiva da própria experiência dessa cultura.
É por isso que não temos um cesto comum. Um cesto não é um cesto, ele tem que ser bonito. Uma ideia não é só uma ideia, ela tem que ser bela. Esse “tem que ser belo” é constitutivo dessa cultura, desse jeito de habitar o mundo. A beleza não é plástica, a beleza é estética. O corpo é estético, a palavra é da ordem da estética. É criação, criadora,
formadora de equidade, chama. Ela exige justiça. É alegre, se dá como canto, corporeidade, poética, inclusão, diversidade, afirmação positiva da diferença e não negação da diferença.
Oxum, para mim, é justamente a matrona da estética. A matrona, a mãe desse jeito de pensar. Ela não é a mãe da estética porque ela é um pavão, um dos pássaros mais bonitos que existe sobre a terra. Para ela, tanto faz ser pavão ou urubu, porque o critério fundamental é o comunitário. A sabedoria fundamental é saber-se como pessoa inserida numa comunidade que lhe dá sentido.
Estive uma vez numa comunidade de camponeses, no interior de Pernambuco, quando um vendaval descobriu a maioria das casas. Foi muito difícil para a comunidade, que era pequena, restaurar as casas, particularmente os telhados. Uma senhora viúva, que morava sozinha, não tinha a menor condição de retelhar a sua casa. Então, a comunidade fez um mutirão, cada um tirou um pouco da sua própria telha e deu para essa senhora. Na reunião da Associação de Moradores da comunidade, o Seu Zé disse, “Sabe o que é, sô? É que não sou uma pessoa, a pessoa é a
comunidade”. Que sabedoria! Em comunidade de terreiro, em comunidade de Reinados, em comunidade de maracatu, de capoeira, ou seja, nas comunidades negro-africanas, agimos assim.
Leda Maria Martins: É muito interessante que Dudu nos alerte para essa questão estética, porque se trata de outro modo de lidar com o belo, que é uma das coisas que aprendemos no Reinado e em todas as manifestações culturais negras ditas “tradicionais”. Não é o belo como sinônimo de um traço individual, ou seja, que se volta para si mesmo, de um modo bastante narcísico – e não é à toa que a concepção grega do mundo vai conceber uma divindade que é Narciso, apaixonado por si mesmo. Nos saberes das ancestralidades negras, o belo traz um benefício. Não é o belo pelo belo, como aprendemos quando estudamos a história da arte ocidental, a ideia da arte pela arte, dessa singularidade do artista como um gênio, um vate, uma grande celebridade individual.
A arte só é um bem se é um benefício. O valor não é o valor monetário, ou não é principalmente monetário. Perguntaram a Mestre Didi sobre as novas produções artísticas na música, na escultura, na pintura, e ele respondeu que só é de fato um bem a arte que for um bem para a tradição, isso quer dizer um bem para a coletividade, um benefício. Cito essa passagem no meu livro Performances do tempo espiralar.1 Nesse sentido, pensar a estética para as culturas negras, para a ancestralidade, é pensar que tudo que fazemos só tem valor – seu maior valor – se for uma
oferenda, porque a oferenda é um benefício.
Você oferece alguma coisa para o bem de uma coletividade. Esses saberes que aos poucos se dão a conhecer, porque durante muitos anos não foram realmente objeto de interesse mais profundo, para além do exótico, e que também foram preservados como segredo para a sua própria existência, oferecem-nos a possibilidade de serem saberes alternos. A narrativa que Dudu nos trouxe assim nos mostra: a deusa mais bonita, mais vaidosa, mais senhora de si, ao custo não de sua beleza, porque ela não perde a beleza, ela perde os traços daquilo que podemos chamar de belo, mas ela se mantém bela como uma oferenda, torna-se uma oferenda a favor da sua comunidade. Está presente nesse gesto a ideia de reciprocidade, que é própria do pensamento que rege essas ancestralidades.
Em um livro de Wole Soyinka,2 que agora foi traduzido para o português, ele propôs, nos anos 1970, que o panteão de deuses iorubás é fundamental para se pensar um teatro ritual africano. Ao eleger o panteão iorubá, Soyinka foi muito criticado. Ele, na verdade, não universalizava, mas apontava então alguns elementos nesse panteão que davam a possibilidade de se pensar um teatro ritual assentado em princípios que advinham da epistemologia e dos saberes iorubás.
Ele trata de três orixás, Oxalá, Xangô e Ogum, mas é admirador de Ogum. Ele se assenta muito no drama de passagem de Ogum e diz que a essência de Ogum é a reciprocidade. Depois de toda a trajetória de Ogum, cheia de percalços e obstáculos, que é quando ele se constitui como uma divindade íntegra, a sua vontade é a de retribuir à humanidade. Ele se sente devedor em relação à humanidade, não por culpa ou por obrigação. O desejo de reciprocidade em relação à humanidade está no fato de que essas divindades exercitam um dos princípios básicos da ancestralidade negra, que é aquilo que vem ao encontro do coletivo como uma dádiva, um benefício, uma oferenda.
A arte só é um bem se é um benefício. O valor não é o valor monetário, ou não é principalmente monetário.
Eles recebem os nossos louvores e nos enchem também de louvores. As graças são partilhadas. Esse princípio da reciprocidade me leva a pensar em outro princípio que Wole Shoyinka também chama a atenção, que é a noção de complementariedade. Diz um provérbio iorubá: “Se a humanidade não existisse, os deuses não existiriam”. Isso pressupõe uma reciprocidade e complementariedade desde a criação. Quando fui para o Reinado, fui levada para cumprir uma promessa, mas eu não sabia nada de Reinado. Aos cinco anos, fui levada do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, então não tinha ideia do que era, apesar de a minha mãe me contar, muitos anos depois, que ela me levou a Itaúna, no interior de Minas, para ser batizada e que os congadeiros me jogavam para o alto e me pegavam com os bastões.
Ao longo da minha vida no Reinado, fui experimentando esse princípio de cognição negro-africana, a complementariedade, que Soyinka chama a atenção. Nada no cosmos existe sem que tenha o seu complemento. Sendo assim, tudo que existe tem a necessidade do outro para se constituir. A alteridade tem sido muito menosprezada na era atual, não é? O outro, a alteridade em todos os meios em que ela se manifesta, pode ser a alteridade de gênero, raça, etnia, língua, religiões etc. No entanto, qualquer coisa ou qualquer ser, e tudo é ser, só existe porque existe a necessidade do outro e de sua diversidade.
Isso quer dizer que não é você ou sou eu o indivíduo em estado de unicidade. As próprias noções de indivíduo e de sujeito fazem parte de um pensamento filosófico europeu. No âmbito das culturas negras, prevalece a noção de pessoa, vinculada ao coletivo, e tudo que a compõe nas temporalidades curvas. Isso quer dizer também, como explicam os filósofos sobre a ancestralidade negra, que não há uma separação entre presente, passado e futuro, daí a possibilidade de se pensar outras concepções de temporalidade, e mais, de não haver uma separação entre todos os seres e entre as divindades e a humanidade, o que expressa um vínculo necessário entre a pessoa e sua coletividade e entre tudo que na natureza existe.
A história que Dudu nos contou mostra que a divindade é quem foi atrás de um benefício para curar a humanidade. Então, não estamos apartados, nessa concepção de ancestralidade, das árvores, das águas, dos ares, dos planetas, das pedras, dos pássaros, das cobras, das aranhas, de tudo o que existe, porque nós só podemos existir de modo complementar. Isso é fascinante, porque liga, por exemplo, os que já morreram a tudo que está vivo e àqueles que ainda vão nascer.
Esse é um pensamento fundante da ancestralidade negro-africana. Daí, nós podemos pensar na dor da diáspora pelo oceano, que não era simplesmente uma dor física, era uma dor fundante de um apartheid, que não era simplesmente de distância material. Era muito comum os escravizados das Américas desenharem os cosmogramas na pele dos pássaros, das tartarugas, dos peixes, dos animais, dos seres que migravam para que eles pudessem levar a cartografia dos céus, onde estavam os escravizados, para que os ancestrais, que ficaram em África, pudessem lê-las. Era uma mensagem para os ancestrais, porque a pessoa não se constitui sem o outro. E esse outro pode ser a pessoa que já morreu ou aquele que ainda vai nascer. Aquele que se constitui no presente do presente, mas também no
presente do passado, no presente do futuro, no passado do presente, no passado do futuro. Ou seja, tudo está anelado.
Esse é o princípio de uma complementariedade necessária, que nos falta muito. Vivemos numa sociedade, em particular, que não tem como parâmetro a complementariedade. Eduardo falava como, neste mundo, devido à falta, a discriminação, o apartheid, o horror, a morte e o sofrimento só aumentam, porque falta alguma coisa da ordem da cura.
Outro ponto importante é entender a ancestralidade negra. Costumo repetir que não se trata simplesmente de uma reverência ao antepassado do tronco familiar, porque muitas vezes traduzimos assim. No entanto, todas as civilizações têm formas diferentes de fazer a reverência ao antepassado do tronco familiar.
Nas Américas, como estávamos apartados dos céus que constituíam o nosso povo, tivemos que recriar esses anelos, reinventá-los, ou seja, tivemos que nos anelar com os céus cósmicos que ficaram para trás. Nós, que viemos de povos, línguas e saberes muitas vezes diferentes, tivemos que nos religar. Tivemos que expandir aquilo que a ancestralidade pressupôs e recriar os parentescos dos clãs familiares por meio de outros parentescos, os simbólicos e afetivos. Tivemos que nos reinventar, não a partir do zero, e sim com esses assentamentos que nossos antepassados trouxeram com eles. E esses conhecimentos expressam a memória da família individual, a memória de um povo, a memória de todos os saberes. A ancestralidade é, na verdade, uma experiência de existência. No Reinado, chamamos de Pretinhos do Rosário um grupo de pessoas que, para além da etnia, do gênero etc., se unem por ali ser um lugar de pertencimento coletivo.
Considero a minha experiência muito bonita. Não sabia nada do que era o Reinado. A minha mãe precisou alugar uma casa mais próxima do reino do Jatobá, e a primeira cerimônia da qual participei, antes da própria coroação como princesa, foi a visita da Irmandade às casas tocando e cantando. Minha mãe disse que todas as quitandeiras passaram o dia fazendo as quitandas. Naquela época, era muito raro a população da periferia mais pobre ter fogão a gás. A maioria tinha fogão a lenha e forno de barro. Daquela cerimônia, só me lembro de um som. Não ouvia o canto com precisão, mas ouvia o rufar dos tambores. E pra mim foi como um ímã. Naquela época, havia pouca luz elétrica nas ruas. Saí e fui sendo guiada pelo som dos tambores. É a única coisa que de fato me lembro, que nunca mais saiu de mim. Como se fosse a primeira vez que eu ouvia os tambores. E é muito interessante, porque os sons dos tambores são o que para mim mais exercitam, talvez, essa ideia da vibração do axé, da linguagem do axé, da complementariedade, da construção, da vestimenta ancestral, do pertencimento. Minha mãe ficou desesperada: “Cadê a menina? Roubaram a menina”. E apareci dentro das guardas de Congo e de Moçambique. O Sr. Virgulino foi quem contou o resto. Disse que cheguei, beijei a primeira bandeira de guia do Congo, passei por dentro do Congo, beijei a bandeira de guia do Moçambique, entrei no Moçambique e fiquei cantando como se já soubesse os cantos e as danças. O meu primeiro encontro. O primeiro encanto.
Nesses casos, experimentamos algo que ainda não elaboramos teoricamente. Somente muitos anos depois, nos estudos sobre a ancestralidade, soube nomear a experiência no Reinado e perceber como essa experiência existe em várias outras comunidades. O que ela agrega? O que traz para nós? No fundo, a ideia de pertencimento, que se dá no exercício de uma concepção cósmica, de mundo e de pessoa que é muito diversa da concepção europeia que nos colonizou. Descobrimos que é a força de resistência. Não o sentido banal da resistência negra ou indígena, mas um princípio de existência, que não é só a sobrevivência da escravizada, do escravizado nessa população imensa, mas o exercício de certos valores, inclusive do valor ético, que é fundamental.
No âmbito das culturas negras, prevalece a noção de pessoa, vinculada ao coletivo, e tudo que a compõe nas temporalidades curvas. Isso quer dizer também, como explicam os filósofos sobre a ancestralidade negra, que não há uma separação entre presente, passado e futuro, daí a possibilidade de se pensar outras concepções de temporalidade, e mais, de não haver uma separação entre todos os seres e entre as divindades e a humanidade, o que expressa um vínculo necessário entre a pessoa e sua coletividade e entre tudo que na natureza existe.
Só é bom, belo, se é um benefício, não para você, e sim para a coletividade, que se esparge também em você. Agora, a coletividade não é simplesmente uma palavra retórica. Estando uma vez no Acre, com várias lideranças indígenas, há mais de dez anos, um colega, professor Pataxó, cujo nome era Divino, se não me engano, contou que, muitas vezes, as pessoas eram contra a ideia das escolas nas aldeias e os nossos parentes lutavam para que as tivéssemos. Ele falou: “Nós não queremos discriminar os saberes do branco. Queremos que as nossas crianças aprendam a maneira de o branco ler o cosmos, mas também queremos que ela aprenda a nossa maneira de ler as estrelas. Quando a criança entra na escola do branco, a primeira operação da aritmética que ela aprende é a adição. Por isso, queremos a escola na aldeia, pois a primeira operação matemática que as nossas crianças vão aprender não será a soma, e sim a divisão, porque dividir é o principal para a nossa comunidade”.
Durante o período da colonização, houve várias alianças e aproximações entre os povos negros e indígenas, porque essas concepções de mundo, são, muitas vezes, similares. Primeiro, devemos aprender a dividir. Para depois pensar em somar. E quando aprendemos a somar, é para aprendermos com a soma a dividir entre os nossos. São saberes que vão se opor à lógica capitalista. A lógica capitalista é a do acúmulo individual, do self-mademan. Quando tratamos da ancestralidade, estamos lidando com outro repertório de saberes que engloba vários tipos de saberes, as artes (a música, a dança), as medicinas, as engenharias, as arquiteturas, as ciências de várias ordens, as filosofias. São saberes de uma dimensão, de um alcance epistemológico inigualável e são também saberes devocionais. No Reinado, aprendemos que as divindades nunca estão apartadas de nós.
Eduardo David de Oliveira: Vocês sabem que num xirê de umbanda, de candomblé, há três tambores? Temos o Rum, o Rumpi e o Lê. Numa roda de capoeira, há três berimbaus, o Gunga, o Médio e o Viola.
Leda Maria Martins: No Reinado, também são três candombes.
Durante o período da colonização, houve várias alianças e aproximações entre os povos negros e indígenas, porque essas concepções de mundo, são, muitas vezes, similares. Primeiro, devemos aprender a dividir. Para depois pensar em somar. E quando aprendemos a somar, é para aprendermos com a soma a dividir entre os nossos. São saberes que vão se opor à lógica capitalista.
Eduardo David de Oliveira: Há um sentido nisso. O Gunga, berimbau mais grave, assim como o Rum, o atabaque, dá o tom. É ele que comanda a festa e efetivamente dá o ritmo. É ele que faz descer o orixá. O Médio, ou Rumpi, estabelece uma conversa crítica com o rum. Ele se opõe respeitosamente a quem dá o tom. Adoro isso, porque já está previsto o exercício do diálogo. E o Lê, o atabaque, ou o Viola, o berimbau, é a criança que brinca no terreiro, que vai dobrar o toque do Rumpi, do ancestral. Ele dobra, perfuma, multiplica, faz essa função. Quando Leda falou sobre os tambores, pensei que, nesta conversa, Leda é o Rum e eu sou o Lê.
Na tradição iorubá, e tenho quase certeza de que também na bantu, quando a divindade lhe cria, você contrai uma dívida, você recebe uma vida que não tinha e que não tinha como reivindicar, porque você ainda não era, mas passa a ser como dádiva. Então, uma dádiva divina lhe dá a existência e você contrai pela existência que recebeu uma dívida com essa divindade, com todo o meio que o recebe, com tudo que é divindade, que eu chamaria de natureza. Não daria para falar de divindade sem falar de natureza, já que não é transcendente, já que é o aqui, é o rés do chão. A relação entre dádiva e dívida é bem conhecida, por exemplo, na Antropologia. A lógica do sacrifício era a da restituição da energia, mas faltou o terceiro elemento, que é como pagamos a dívida. Temos uma expressão, uma palavra em iorubá, que se chama ibikiti, que significa centelha de luz. Então, sou uma centelha da divindade. Como centelha, tenho um brilho próprio, energia, calor, uma constituição singular que depende desse Sol, o Olorum, que é o conjunto dessas singularidades. Então, não se separa estrutura de singularidade, pois elas se relacionam, se complementam. Ao ser ibikiti, sou uma centelha divina, que se apresenta em várias tradições religiosas, como no cristianismo, em que Deus sopra a vida nas narinas das pessoas, em religiões do Oriente, em África e em várias cosmologias indígenas. Além disso, sou cocriador do mundo. Preciso continuar a criação, a política afirmativa de Olodumarê. Preciso seguir essa obra a partir desse lugar de corresponsável pela criação. Por isso, não é possível dizer “Deus lhe pague”, porque me responsabilizo, é outra lógica. Quando continuo a criação de Olodumarê, seguindo os seus princípios, a alegria, a beleza, a coletividade, o bem viver, a saciedade, a circularidade, estou literalmente respondendo à dádiva que recebi e à dívida que contraí com a reciprocidade. A reciprocidade é constitutiva do universo em que vivemos. A isso nomeiam cultura. O mistério nos dá a vida pela dádiva. Respondemos à dádiva que recebemos como cultura. Ou seja, a reciprocidade é justamente o reino das trocas, do encontro com o outro.
É muito curioso que essas polaridades inventadas são todas antinaturais. O outro é sempre negado nos polos opostos, seja homem-mulher, seja cis-trans, seja rico-pobre, seja adulto-criança, seja ancião-jovem, seja preto-branco. O curioso é que quem criou esses polos opostos foi Descartes, que criou o plano cartesiano no século XVII. O plano cartesiano é formado por uma linha horizontal que se cruza com uma linha vertical, de modo que posso localizar qualquer coisa, inclusive ondas. Descartes, quando criou esse plano, estava pensando na bissetriz, que corta os dois planos, então as coisas se interligam. No entanto, o plano é baseado em polos opostos, negativo e positivo, daí, –1, –2, –3, +1, +2, +3. Essa é a base da assimetria de gênero, mas quem criou esse discurso da polaridade oposta de gênero foram os homens. Quem criou a teoria de raça, o racismo científico e o racismo efetivo foram os brancos. Quem criou as discriminações de sexualidade foram os cis. Quem disse que a criança era um projeto de pessoa foi o adulto. Quem cria a diferença e institui uma lógica, um jeito de pensar opressivo é aquele que tem o privilégio. E aquele que aparece no polo oposto não tem voz, não pôde falar por si mesmo, foi calado, porque a diferença dessa alteridade é negada continuamente, permanentemente.
Assim, concluiu-se que as mulheres não tinham voz, os africanos não tinham cultura, Estado ou lei. É curioso porque esses polos opostos não são da ordem da natureza. É um tipo de cultura que se institui pelo desequilíbrio dos polos e institui o modo da exclusão, como é o capital, como modo preferencial. No entanto, nunca africanos e indígenas pensaram ou viveram dessa maneira. As diferenças são complementares.
Olodumarê existia sozinho, a divindade criadora iorubá, existia antes de o mundo existir. Ele existia nas águas do mar, mas não havia onda. Era o corpo da divindade num lago infinito. Ele pegou um pedaço do seu ombro, da sua coxa, da sua cabeça e arremessou-as no lago. Mas nada aconteceu, as partes ficaram boiando, pois não havia movimento. Num certo momento, ele se abaixou e soprou, e a água fez um leve ondulação. Criaram-se as ondas, criou-se o movimento. A nossa cultura é a do movimento.
Com o movimento das ondas, os pedaços de Olodumarê foram se juntando e criando a montanha, o reino animal, o reino vegetal, o reino humano e o reino espiritual. Foi o sopro, o hálito de Olodumarê que impulsionou a criação, porque a diferença sozinha é estagnada, seca, estéril. É preciso haver oposição para haver fertilização. Do encontro das diferenças surge o múltiplo, a próxima conta da matemática. Após dividir, partilhar, eu multiplico. Ao multiplicar, ocorre o encontro de uma diferença com outra diferença, afirmativamente. Não como negação, mas como afirmação. Esse é o paradigma da criação, um paradigma ético-estético que gera novas diferenças. Ao negar uma diferença, estou acabando com a obra criativa de Olodumarê, ou do Zambiapongo, ou de Tupã, como queiram. Ao negar a multiplicação da criação, estou negando a mim mesmo na esfera do sagrado, do social, do corporal, do ambiental, do cultural, do artístico.
Pensando em Descartes, lembrei de um plano cartesiano mais antigo: o cosmograma Bakongo, que chamamos também de Dikenga, ensinado pelo mestre Bunseki Fu-kiau. Conheci o Dikenga pelas mãos do mestre Cobra Mansa, um carioca que viveu na Bahia há muito tempo, um grande mestre de capoeira Angola. Sou aprendiz de capoeira Angola há muitos anos. Em seguida, conheci Tiganá Santana, cantor, compositor, multi-instrumentista e professor.
Leda Maria Martins: O livro africano sem título: cosmologia dos Bantu-Kongo, de Tiganá, acaba de sair pela Cobogó, no qual ele traz o pensamento de Bunseki Fu-Kiau.
Eduardo David de Oliveira: Exatamente, que é a base para entender o Dikenga. Na Geometria Analítica, Descartes propôs o plano cartesiano, no século XVII. Já no cosmograma Bakongo, há uma linha horizontal, que se chama Kalunga, e uma linha vertical, que se chama Talema. Trata-se também de um “plano cartesiano”, mas esse é um plano documentado há seis mil anos. O Dikenga é a trajetória do Sol durante um dia. Ele nasce às 6h da manhã em Kala, está em Tukula ao meio-dia, em seu auge, em Luvemba, ao se pôr e, em Musoni, à meia-noite, porque o Sol não morre.
Descartes, Hobbes, Rousseau, Bacon, Kant, Hegel, Condillac, todos esses ocidentais, da modernidade até hoje, só viram o Sol na produção do conhecimento de Kala a Luvemba. Acima da linha da Kalunga é onde o Sol está brilhando sobre as nossas cabeças. É o mundo do fenômeno, em grego. Fenômeno é exatamente o que aparece sob a luz. Os filósofos ocidentais só viram isso, que já era muita coisa. É uma vasta produção e uma parte bastante útil do pensamento ocidental. No entanto, há todo esse quadrante de baixo. Nseke, acima de Kalunga, é o mundo dos vivos. Leda nos falou das três grandes categorias, os que estão vivendo agora, os que ainda viverão e os que já foram. Os que já foram moram em Mpemba, abaixo da linha Kalunga. E há uma quarta categoria, os que sempre existiram, que nunca foram criados e que sempre existiram. A produção ocidental de conhecimento na Filosofia, na Ciência e nas Artes desconheceu, desconsiderou e invisibilizou toda a parte de Mpemba. Nunca reverenciou os ancestrais, o sagrado. Não é o sagrado como objeto da razão, como é a Teologia, na qual se racionaliza Deus.
Afinal, como é possível racionalizar Deus, explicar o mistério? O mistério não se explica, o mistério se vive. Vivo no mistério devido ao mistério. Não vivo sem o mistério, mas é impossível explicá-lo. Ele é constitutivo do nosso saber, é o próprio fundamento do saber. A ancestralidade é o nosso fundamento, porque é impossível alienar-se dela. Tenho Oxaguiã como meu eledá (orixá de cabeça) e Oxum como meu adjuntó (orixá de corpo), mas é Orunmilá-Ifá quem me governa e para quem fui sagrado Babalawô (sacerdote). Eu não recebo Oxalá quando tocamos para ele, momento em que estaria em contato com o meu sagrado. Ele está comigo o tempo inteiro, neste momento. Antes de eu nascer, em Musoni, quando eu estava sendo concebido. Nasci em Kala, que é o nascimento do Sol, mas também é o nascimento da criança. Ao desenvolver-me, em Tukula, tenho um papel de responsabilidade com a minha comunidade. É o meu sacerdócio. Luvemba será quando sairei desse plano para reintegrar outra vez o plano dos ancestrais. Então, ele está o tempo inteiro comigo. Sou meu orixá, não tenho um orixá. Então, sou divino, somos divinos, isto é, ibikiti, as centelhas de Deus. Esse “plano cartesiano” não exclui, mas inclui os ancestrais como fundamento.
Gosto de brincar que Descartes era míope, só conseguia ver 50% do que se nomeia de real. É quase uma cegueira, porque, no plano cartesiano, temos os eixos das ordenadas e das abscissas. O primeiro quadrante é ++, o segundo, -+, o terceiro, -- e o quarto, +-. Para Descartes, a ideia clara e distinta da realidade está configurada só no quadrante ++, que é apenas 25% desse giro de 360 graus. É pouco para aquele que é considerado o pai da modernidade, que instituiu as ciências, a Filosofia e que foi a base para o próprio pensamento sobre a arte.
Na capoeira, há muitas maneiras de andar. Há o rolê, em que é possível ver 360 graus, é possível ver as sete direções bantu, o que está acima, abaixo, ao lado direito, ao lado esquerdo, à frente, atrás e a que guia essas seis, o que está dentro. É fantástico porque o movimento corporal da capoeira é um conhecimento incorporado, incorpora os ancestrais. Quando se inicia a roda de capoeira, a primeira coisa a fazer é cantar a ladainha saudando os ancestrais, sejam espirituais, sejam os mestres, antigos e vivos, porque não estão separados. Depois, canta-se o corrido, momento em que o jogo começa. Mas o jogo começou na saudação, assim como no candomblé, em que a roda, o xirê, a gira, começa com a saudação aos ancestrais. Isso se faz em comunidade, não exposto ao público. Ocorre da mesma forma no Reinado. Esse momento do segredo, na verdade, não é um segredo porque é fechado, mas sim porque está conectado com o cosmos. Há a criação de uma ponte que vai do corpo ao cosmos.
O telescópio do James Webb está tirando fotos de 13 bilhões de anos atrás. Discute-se, atualmente, a matéria escura e a energia escura. É uma novidade, não temos prova da energia escura e nem da matéria escura, por enquanto trata-se apenas de dedução matemática. Mas já é uma teoria bastante aceita pelas comunidades científicas. A matéria escura é a própria lei da gravidade, é o que atrai as coisas, e a energia escura é o contrário, é o que expande. Então, nos perguntamos: se o Universo já é tudo que existe, para onde ele se expande? Encontrei o sentido disso no Ifá. Ele se expande para o mistério, para o infinito, na minha linguagem, para Olorum, o lugar depois do Sol, para o princípio, a origem, a criação, que é escura, que é ancestral, que é Mpemba. Expande-se para o poético. Só é possível dizer isso poeticamente, não é possível dizer logicamente, formalmente.
Quando um(a) poeta faz um poema e maneja a língua portuguesa, é contra a língua que o faz. É transgredindo a língua que um poema se faz, porque se um poema não for além da sua língua, não é um poema. O poema se faz apesar da linguagem. Ele produz um sentido que é impossível de ser decupado como raciocínio, como cogito. Não penso logo sou, porque também amo e sou mais quando amo. Também sonho e sou mais quando sonho. Também corro, danço, jogo, toco, brinco, e isso tudo é mais importante para mim do que quando penso. Pensar é importante para mim, sou professor, mas é um ponto entre outros, é um subconjunto, não é o conjunto. O Dikenga me ajuda a pensar esses polos complementares, porque se a criança está em Kala, o ancião está em Luvemba, e uma linha os interliga. Se o vivo está em Tukula – os viventes no Aiê, na Terra – e Musoni está aqui embaixo como ancestral, há uma linha que os aproxima, que os interliga.
Quando estamos no auge como vivos, há um ancestral nos sustentando. A criança e o ancião estão muito mais próximos da ancestralidade. E a criança é mais ancestral do que o ancião, pois veio diretamente da ancestralidade. Ela vem com mais vida, não com menos, e vai perdendo-a. A semente é mais velha do que a árvore. É essa a ideia. O que está debaixo da terra, no escuro, no ventre, no úmido, é a primeira existência. Não a vemos, mas sem ela não existiríamos. Portanto, ela está para nós como condição da existência. Não é algo que eu possa optar por não dizer, não saber. A cultura de plástico não subsiste sem a cultura da terra. É a natureza. Divindade é natureza, não é abstração. Divindade é tocar, brincar, cantar, jogar, viver, compartilhar, trocar, ter reciprocidade.
A matéria escura é a própria gravidade, é o que adensa os seres, é o que reúne as diferenças. Isso é fundamental para existirmos socialmente, culturalmente. Nós nos agrupamos pela lei da gravidade, senão não ficávamos na superfície do planeta. A densidade é fundamental para formarmos a comunidade. Logo, a matéria escura é uma lei que forma a comunidade. Dizem os astrofísicos que ela constitui mais de 90% do Universo conhecido, ou seja, o universo da luz, do fenômeno – aquilo que vemos –, equivale apenas a 10%. É como o cérebro, conhecemos apenas 10% dele. O resto é energia escura, é infinito, é amplidão.
Ora, mas é preciso também criação, que continuemos o movimento criativo da vida, em todos os campos, em todos os níveis. Isso é energia escura se expandindo, o que nos leva para o infinito onde vivemos, o que nos dá a possibilidade da ampliação dos saberes de qualquer área, de qualquer campo discursivo. A criação é fundamental para a continuação da existência. No mundo da criação, o campo das artes é fundamental, mas não é o único que tem um destino social de produção. No entanto, numa sociedade em que há especialistas, atribui-se a criatividade a especialistas. É um modo de vida empobrecido.
A rua sempre foi mais criativa do que o museu, as galerias, as universidades, as igrejas, os templos. Quando digo a rua, estou falando de um infinito, de Exu, aquele que é o dono dos caminhos. A energia escura, que é onde vivemos, é a nossa casa comum. Embora não a vejamos, não podemos existir, localizarmo-nos sem ela. A energia escura é a minha casa, que se expande para o cosmos, infinito afora – se fosse possível falar assim –, para dentro, a subjetividade infinita, o aprendizado contínuo de si mesmo.
Caí numa armadilha na minha formação de cientista social e filósofo. Fui ensinado a ser estruturalista, a ver os códigos, as estruturas, seguindo a linha de Lévi-Strauss. Na Filosofia, estudei os universais, Platão, Hegel etc. Depois, vim para a Antropologia e me ensinaram que isso não valia muito, que eu tinha que pensar as singularidades. Então, mudei os autores, fui para o pós-estruturalismo, estudar as relações entre os indivíduos. Sentia que estava numa polaridade excludente. Quando encontrei Exu, entendi que Exu era a estrutura do universo africano inteira e a singularidade de cada ser, mineral, vegetal, animal e espiritual. Portanto, estrutura e singularidade se complementam, não se separam como as ciências me ensinaram a fazer. A minha primeira formação era a da afirmação do eu, o mesmo, o próprio, o tempo inteiro, oriunda da cultura ocidental. A crítica à cultura ocidental afirma o outro, a alteridade, onde estou, por isso fui ler Emmanuel Lévinas, os autores que tratam da alteridade. Quando encontrei os africanos, descobri que eles estão falando do “nós” cosmológico, o “nós” como pronome cosmológico. Foi assim que saí dessa outra armadilha de polaridade, que era a do eu-outro, porque eu não sou eu e eu não sou o outro, eu sou o nós. Essa é a nossa cultura. E o nós possui muitos nós para serem desatados.
Público: Boa tarde! Sou historiadora da moda, pesquiso o vestuário afro-brasileiro do século XIX e percebo a proximidade entre vestuário e espiritualidade. Vocês falaram sobre o simbolismo que a espiritualidade carrega. Quando pensamos o contexto brasileiro, fica evidente que, apesar de as pessoas negras terem sempre sido perseguidas, elas conseguiram manter vivas essas referências. Fico muito curiosa sobre como a espiritualidade perpassa o processo criativo de muitos estilistas na contemporaneidade. No século XIX, as indumentárias das mulheres negras, o traje de crioula, foram muito associadas a um processo de ascensão econômica dessas mulheres. O que percebo é que as estilistas do século XXI retomam essa mesma referência do pano da costa, do traje de crioula. Vestimentas incorporadas pelo candomblé e que preservaram a memória espiritual a partir da materialidade da roupa. Essas estilistas, atualmente, olham para esse legado e para a espiritualidade com o intuito de transformar as dificuldades, os desafios, apegando-se à espiritualidade como um processo de crescimento, não só deles, mas coletivo, e trazendo essas reflexões em forma de roupa. Tenho me atentado para o fato de a espiritualidade passar pelas subjetividades e chegar a campos que, às vezes, não refletimos no nosso cotidiano.
Eduardo David de Oliveira: Uma coisa está enredada na outra. Estávamos falando, antes, que há um jeito de viver a cultura que é também estético. Vou além, não se trata de vivê-la de uma maneira estética, mas considerá-la estética. Essa cultura é antes estética do que, para usar as palavras da Filosofia, metafísica e/ou ontológica. Não falo da estética como plano da obra de arte, e sim a vida como obra de arte. Sendo assim, absolutamente tudo o que usamos materializa os princípios que estão no espectro da corporeidade. E a corporeidade é tudo, o cosmos, o Sol, a Lua, as estrelas, o mar, os bichos, a floresta, o nosso próprio corpo. Sou de Ifá, e somos regidos por Odu. Uma perna do meu Odu é Oxê, que é justamente onde nasceu a moda. Nesse caso, a roupa não representa algo, pois ela não está no paradigma da representação. Ela é experiência, é oferenda do sacrifício, é restituição de energia para a comunidade, é comida. A anágua de Oxóssi – hoje é quinta-feira, dia de Oxóssi – não representa esse orixá, ela é o orixá. Os seus instrumentos, o seu arco, a sua flecha, são o orixá, a cor é a vibração de Oxóssi. Quando chego perto de alguém de Oxóssi, sinto a vibração do orixá. Se coloco os ornamentos, se faço todo o texto corporal, com tudo que o compõe, inclusive as roupas, em consonância com esse princípio, potencializo o que chamamos de axé. Potencializo a energia vital que criará bem-estar para mim e para os meus, para a minha comunidade. Então, as indumentárias são portadoras de axé. Por isso, elas não podem ser compradas em loja. Fazemos tudo, porque é necessária essa autonomia artesanal. É tudo parte desse diálogo com a natureza. Portanto, a roupa é uma expressão da natureza como cultura.
Público: Percebo que as crianças pequenas são convidadas a entrar no mundo racional muito cedo. A própria escola traz esse tipo de cobrança ao ensinar a ler e a racionalizar muito cedo. Dessa forma, arrancamos a criança do universo onírico, do mistério, das profundidades que ela habita e que pertence a elas. É uma luta política atual garantir esse direito às crianças. Como o pensamento ancestral, esse pensamento negro, acolhe a criança, esse ser humano que acabou de chegar? Quais são os cuidados para acolher a criança no mundo?
Público: Como trabalhar a experiência do tempo e do corpo com as crianças na escola?
Eduardo David de Oliveira: Fu-kiau também escreveu um livro sobre a educação das crianças que ainda não foi lançado no Brasil, mas será em breve. O que ele explica é a criança ser mais ancestral, ou seja, ela está mais próxima do mistério ancestral e sem o problema de a razão estar interposta entre a criança e o ancestral.
Os gregos, especificamente os pré-socráticos, produziam um pensamento para a natureza – que eles chamavam de physis –, para o vivido, o experiencial, o imanente. Foi Sócrates, que nem sabemos se, de fato, existiu, pois ele é um personagem de Platão, que instituiu, de maneira muito artificial, a razão no mundo ocidental. E ela não será questionada, atravessando todo o período antigo, desde Atenas, no século IV, antes da Era Comum, passando por todo o período medieval e por toda a Modernidade. No período entreguerras, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, essa razão começou a ser questionada. No entanto, a razão ocupou, artificialmente, um extenso espaço e um longo tempo como sendo tudo, recobrindo tudo, dando sentido a tudo, da divindade à natureza, do humano a todas as coisas.
As crianças, sobretudo as pequenas, ainda não estão totalmente presas nas garras dessa racionalidade. As crianças precisavam do adulto racional para educá-las, as mulheres precisavam da tutela dos homens racionais para educá-las. Esse é um dos grandes fundamentos do racismo. Não é que os negros e as negras africanas fossem ruins, eles(as) eram considerados(as) crianças, selvagens, inocentes. Desse modo, precisavam de uma mão forte, racional, que os(as) educassem. Por isso, a lei, o Estado e a Teologia. Então, a criança é a que está menos contaminada, no primeiro momento, por esse imbróglio terrível, mas será rapidamente capturada. A Pedagogia ocidental é uma violência contra a criança, porque deteriora o que já veio pronto. É equivocada a compreensão de que a criança será alguma coisa, pois ela já nasce como mestra. No terreiro de candomblé, contamos a idade dos membros pelo tempo de iniciação. Por exemplo, o meu mais velho é um menino de 16 anos, para quem bato cabeça. Mas a criança, quando nasce, está feita. É como cantamos na capoeira, quem é bom já nasce feito. A criança já vem pronta. O nosso papel pedagógico deve ser o de acompanhar a criança e não a deturpar no processo educacional. A brincadeira, o lúdico, a corporeidade, a circularidade, a oralidade, o chiste, o riso, o aió, que significa alegria, é constitutivo desse ser. Uma pedagogia que não é atenta a isso está traindo a nossa experiência ancestral e ocidental, porque mesmo para o Ocidente é uma traição. É preciso dar vazão para que esses espaços educativos eduquem, pois os ambientes formativos, o Reinado, o xirê, a gira, a roda de capoeira, o lundu, educam mais do que a escola. É preciso deixar que as nossas crianças transitem pelos espaços que educam, porque o espaço educa mais do que a professora e o professor, do que o livro. O espaço é educativo. O mar é educativo. É preciso aprender a linguagem da criança para falar; é preciso ser moleque para entender o erê.
Mas a criança, quando nasce, está feita. É como cantamos na capoeira, quem é bom já nasce feito. A criança já vem pronta. O nosso papel pedagógico deve ser o de acompanhar a criança e não a deturpar no processo educacional.
Leda Maria Martins: Aquele que ainda vai nascer, no âmbito das espirais, já foi e já é nascido. Dessa forma, estamos lidando não apenas com um tipo de retórica da linguagem, que muitas vezes falha na tradução, porque há alguma coisa que excede a própria linguagem, mas também com noções e conceitos que exigem de nós uma torção mental. Então, quando falamos de uma experiência vivida, experimentada, sentida e pensada, ela exige essa torção. A criança não é simplesmente uma cuia vazia, não é alguém inferior ou um adulto em miniatura. Vocês já observaram que a arte ocidental retrata as crianças, muitas vezes, como adultos em miniatura? A criança é simultaneamente um acúmulo de temporalidade, conhecimento e pensamento, assim como ela é o tempo e o espaço que se reinauguram a cada momento. A concepção é diferente da ocidental. Não estamos lidando com uma espécie de recipiente vazio. O professor no Ocidente é considerado aquele que detém o conhecimento e o repassa para quem não tem nenhum. Muitas pessoas repetem esse modelo da caixa vazia que vai recebendo ideias e conhecimentos. O mesmo se dá em relação à memória, à lembrança, como se bastasse acionar essa caixa, retirar uma lembrança e construir com ela a memória. Não é bem assim. A memória é uma construção que anela a lembrança e o esquecimento e que se constrói pelo entrelaçamento de temporalidades distintas, em trânsito.
O mundo está em contínua disputa de poder. Estamos falando de 500 anos de contradições, de contrarrevoluções, de contracolonizações, de uma difícil manutenção de outros modos de habitar o mundo e ser pelo mundo habitado. É muito interessante observarmos como as crianças do Reinado, por exemplo, levam um choque quando chegam à escola, porque se, no Reinado, elas têm uma perspectiva de si, de integralidade, de complementariedade, de existência lúdica e necessária, quando chegam a outra escola, sentem-se anuladas, porque não há nada que as constitua como referência. É muito comum as crianças entrarem em depressão, porque elas passam a ver o mundo como uma experiência de oposição, de um tipo de pensamento sobre elas que as exclui.
Vejo isso tanto em relação ao velho quanto em relação ao novo. Por exemplo, quais são os lugares para a criança e para o velho quando pensamos a cultura ou a sociedade na qual habitamos? Se a criança é aquela que não ouvimos, de certo modo, ela é a que não existe, é como se ela habitasse um não lugar, é uma caixa vazia a ser preenchida pelo adulto. Como Dudu lembrou, a mulher e o negro eram pensados assim, como crianças, logo seres que não falavam. E se não falavam, não havia sequer razão para existirem. A mesma situação acontece com o velho. Na nossa sociedade, a criança e o velho ocupam o não lugar, são um estorvo. É uma dificuldade para as famílias e para a sociedade, porque, de acordo com a lógica capitalista, eles não produzem. Então, não tem mais-valia. Qual o valor a se agregar a quem não responde em termos de produção de um bem precificado? Por isso, eles não são considerados. A louvação da criança e do velho passa a ser um modo discursivo que não corresponde a um tratamento de fato.
O que herdamos de África como constitutivo, paradigmático, estruturante e que criamos a partir deles segue uma lógica oposta, porque a ancestralidade não está apenas naquele que é o mais velho, já que a concepção das idades também varia. Cada um de nós habita temporalidades distintas, portanto, simultaneamente, somos a tradução de N temporalidades. Dessa forma, a criança não é aquela que menos sabe, porque ela é tradução simultaneamente do tempo e do espaço acumulado e do tempo e do espaço inaugural. O mesmo ocorre com o velho. Lidamos com concepções que se ancoram também no princípio do movimento, da cinesia. Na verdade, os princípios do movimento e da transiência fazem com que o movimento seja executado não de forma progressiva e linear. Se pressupomos que a criança e o velho são simultaneamente acúmulos de conhecimento e de movimento inaugural, pressupomos a capacidade de uma temporalidade que o próprio cosmos traduz. Se vemos, lemos e somos iluminados por estrelas que aparentemente morreram há milhões de anos, mas que continuam a ser, estamos ainda no presente. Então, não se trata de um passado acabado, não é um passado partido no passado, e sim um que continua como presença do presente, constituindo o próprio passado, nunca acabado, assim como o futuro que já foi, ainda é e, portanto, sempre será. Essa é a ideia das espirais, de um tempo que se constitui em curvas. Para as temporalidades espiralizadas, o Universo está simultaneamente em expansão e contenção. É o princípio da respiração e, como Dudu chamou a atenção, é o princípio da criação. A criação, o tempo e o cosmos não são pensados como passíveis de desaparecimento. A respiração é o ato da criação, é a complementariedade que se dá através de todos nós e de tudo o que existe. Tudo o que existe participa da criação, porque tudo o que existe é a mão inaugural, assim como é a mão ancestral. Se formos ler a criação, se formos ler o universo como a respiração, percebemos que ela inclui simultaneamente o exercício do silêncio e da fala, do cheio e do vazio, da vida e da morte, não como aspectos dicotômicos. Cada respiração é um rito de passagem, da vida para a morte, da morte para a vida e é isso que possibilita a existência.
Cantem comigo:
[Leda canta.]
Olê, Angola,
Olê, Angola.
Essa gunga vai girar,
Essa gunga vai girar.
Correr, mundo, ê, correr, mar.
Correr, mundo, ê, correr, mar.
Público: Gostaria de saber mais sobre o ponto da razão e do questionamento dos efeitos dessa razão no período anterior à Segunda Guerra Mundial. Gostaria que pensássemos também esse período posterior à pandemia em relação à questão psicoemocional. Parece ter aumentado muito, no Brasil, o número de pessoas deprimidas, de consumidores de psicotrópicos e congêneres. Essas emoções viram algo que precisa ser medicado, controlado, circunscrito medicamente, porque não está inscrito na ordem da espiritualidade.
Leda Maria Martins: Para mim, tudo é sagrado. Vivo a partir da ideia da sacralidade da existência, que não me permite pensar que há espiritualidade aqui e não há espiritualidade ali, porque ela não concebe a existência, e quando falo de existência não é só a humana, como não sagrada. Tenho muito receio de cair de novo nos dualismos. Makota Valdina tem um texto belíssimo que trata dessa sacralidade da existência e pressupõe que o principal seja a cura. Não é a cura por meio dos remédios alopáticos. Vocês já notaram a quantidade de farmácias nas nossas cidades brasileiras? Às vezes, deparamo-nos com uma ao lado da outra. A farmácia é o lugar onde se vendem os remédios, como se eles, por si só, dessem conta da cura. E, aqui, estamos falando de outra dimensão da cura que não se ancora apenas na qualidade da medicação, pois a medicação faz parte da nutrição, que é muito mais ampla. E a nossa sociedade carece de nutrição. Há muitas farmácias, mas não há nutrição. Não estou defendendo a ideia de abandonar os fármacos, e sim que lembremos que ele é remédio e é veneno, o que está na própria concepção da palavra. Desse modo, a cura não é simplesmente a eliminação da doença, mas é uma tentativa de harmonização integral do ser. Por isso, não existe a medicação sem a louvação. Precisamos da erva e da reza da mesma maneira.
Lembro-me de um caso que me fascinou muito. Eu era muito amiga de Toninho Maxakali, inclusive faço uma modesta homenagem a ele neste livro.3 Uma vez, Toninho foi levado para um dos melhores hospitais de Belo Horizonte, o Hospital das Clínicas, muito doente, mas não melhorava. Ele pediu uma autorização para que os outros pajés, os outros membros da aldeia, fossem vê-lo para fazerem oração, que era o ritual de cura. Quando finalmente o hospital permitiu, foi feito o ritual e ele se curou. Ou seja, o remédio precisava da reza, da oração, para ter efeito. É outra dimensão do ser, pois engloba uma série de outros cuidados. É nesse sentido que acho que vivemos em um mundo de múltiplas carências, pois, atualmente, acredita-se que o remédio dá conta de tudo. E a humanidade fica cada vez mais doente.
Eduardo David de Oliveira: Freud falava do inconsciente individual; Jung, do inconsciente coletivo; Lévi-Strauss, do inconsciente vazio; Lacan, de um inconsciente como linguagem, como matema; Deleuze e Guattari, de inconsciente maquínico de processos esquizos... Mas quais desses modelos de inconsciente responde aos nossos problemas? Não estou desautorizando esses esquemas, mas acredito que eles não sejam suficientes. Tratamos de um inconsciente ancestral, então, para se curar, deve-se estar em sintonia com o seu ancestral. Se ficarmos sem o nosso ancestral, morremos, definhamos aos poucos, perdemos o sentido, a identidade, o vigor, o axé propriamente dito. Precisamos estar em conexão com a natureza, e a natureza não é só o bicho, o mato, é a natureza da maneira mais expandida, incluindo o bicho, o pé na terra. Precisamos estar em sintonia com a comunidade. Esse é o grande mal-estar do mundo atual. Não temos sintonia com o ancestral, com a natureza e com a comunidade, porque vivemos sob o auspício de um individualismo que não existe de fato, existe apenas como prática social. Afinal, não é o individualismo que nos faz existir, porque individualmente ninguém sequer chega ao mundo e nem sai do mundo, já que ritualizamos a entrada, a saída e a permanência. O que falta é identificarmos, fazermos o diagnóstico desse elemento no tratamento dos nossos males. Não estou falando de uma projeção, e sim de uma experiência milenar. É assim que se faz na pajelança. Trabalho com cura. No Ifá, há o seguinte provérbio: Ifá é remédio.
Fu-kiau diz, na cosmologia dos Bantu-Kongo, que a cumbuca da criação, o princípio do cosmos, é uma cumbuca de remédios. Essa é a acepção que Leda trouxe. As coisas estão à nossa mão, ao nosso alcance, mas fazemos medicalização de qualquer problema, porque a indústria farmacêutica precisa fazer da doença mercadoria, e somos uma mercadoria consumidora.
Aprendemos a ser especialistas em alguns pontos, por exemplo, conheço pessoas especialistas em racismo, e várias dessas pessoas são racistas. Há o nicho que estuda o candomblé, estudando uma arte específica, mas ficamos muito tempo órfãos de uma concepção, de uma epistemologia que compreendesse essas coisas como um conjunto. Não temos muitos autores e muitas autoras que tratam, no Brasil, dessa compreensão do todo, dessa relação entre cosmos e corpo, mesmo atualmente, em que essa noção já é bem mais abordada. Há muitas décadas, Leda é para nós uma bússola. Ela soube compreender exatamente esse lugar da produção do conhecimento que não está isolada da produção da alegria, da cura, do bem-estar, do bem viver, do sagrado, da corporeidade, da oralidade. Na academia, esse é um campo de disputa. Nós, as pessoas negras, ficávamos sempre de fora, éramos objeto de estudo. Quando passamos a estar na universidade, passamos a estudar os nossos guetos. Então, preto passou a falar de preto, mulher passou a falar de mulher. No entanto, devemos falar do que quisermos, porque temos condição para isso e precisamos de um lastro epistemológico para isso.
Quando fui estudar África, não havia quem a estudasse, não havia historiadores dessa região. Já estava desanimado, quando encontrei a obra de Leda, não de um homem, mas de uma mulher preta, que não estava no eixo Rio-São Paulo. Ela percebeu essa engenharia toda, que nada ficava de fora dessa espiral. Esse, para mim, é o caminho, e há mais pessoas fazendo isso. Havia pessoas antes de Leda fazendo isso, mas a grande maioria não estava na universidade, estava nos terreiros, nos candombes, a nossa escola, a nossa universidade. Mas a academia é também um campo de disputa, então precisamos estar nesse espaço. Conheci tardiamente a obra de Leda para meu prejuízo de formação. Eu seria muito mais feliz se a tivesse conhecido antes.
Leda Maria Martins: Querido, isso é muita generosidade sua. Encontrar Dudu, encontrar Tiganá, tem sido uma bênção, porque com eles é possível esse tipo de conversa. Na universidade brasileira, isso é muito raro. Ler um texto e falar, “gente, isto é o que eu gostaria de ter escrito, porque conversa comigo”, é como conversar com alguém que não conhecemos pessoalmente. Quando conheci Dudu, foi como reconhecê-lo.
Público: Sempre achei que a brincadeira pensava, ela tinha seu próprio pensamento. Tudo o que fazemos pensa e tem o seu próprio pensamento. Então, talvez pudéssemos pensar metodologicamente algumas reinvenções ou recuperações de algumas ideias e palavras. Por exemplo, estamos muito dominados pela ideia neoliberal de experiência. Por mais que vocês tenham tão lindamente recolocado a palavra “experiência”, fico me perguntando como, no nosso caminho, na sala de aula, nos nossos palcos, podemos afirmar ainda mais essa beleza que vocês falam, de deslocar, recolocar a dimensão da experiência.
Eduardo David de Oliveira: Responderei partindo das coisas de que participo. Na capoeira, falamos de brincar de capoeira. No Ceará, quando eu estava muito ligado ao maracatu, falávamos de brincar o maracatu. No candomblé, a palavra xirê, em iorubá, significa brincadeira. Brincamos o Reinado, brincamos o lundu. Seria lindo que recuperássemos essa tônica. Como nos identificamos? Brincantes. O que eu sou? Sou brincante. Mesmo que eu tenha um título pesado. Rainha, por exemplo, é um título de muita responsabilidade. Não é para qualquer um, mas ela brinca o candombe. Babalawô é um título que tem seu peso, mas ele brinca com o xirê. A brincadeira está para além da experiência, a divindade brinca o tempo inteiro. As divindades criadoras se divertem conosco. Pensemos que sou o quintal de Olodumarê. Ele brinca de maneiras que, às vezes, deixam-me afirmativamente perturbado, às vezes, deixam-me doente, porque não entendo, acontecem coisas que me fazem questionar por que elas estão acontecendo, como se não fossem parte da vida, da maestria, do aprendizado. Sempre digo às pessoas que vêm me consultar para terem cuidado com o que pedem, porque pode acontecer.
Leda Maria Martins: Isso é tão fascinante. Costumo dizer que a experiência do Reinado é muito séria, com muitas responsabilidades, mas tem também uma dimensão lúdica e alegre. É fantástica e é constitutiva. Nos velórios do povo preto, o caixão está sendo guardado lá dentro. Às vezes, a família está lá dentro e está chorosa e, do lado de fora, o povo está bebendo a cachacinha, contando histórias e rindo. A alegria não se resume ao divertimento.
Eduardo David de Oliveira: É a alacridade que Muniz Sodré tão bem conceituou, porque a alacridade é uma cultura da alegria. Não significa que o tempo todo estamos rindo. Quem está o tempo todo rindo é meio bobo. Não temos motivo para ficarmos o tempo todo rindo, mas temos motivos para estarmos alegres. Essas culturas são culturas de alegria. A morte é uma festa e sem a morte não há cultura. A cultura nasceu da morte. A vida nasceu da morte. A luz nasceu do escuro. Nós, como centelhas de luz, viemos do mistério escuro, do ventre feminino, do universo que nos gerou. Trata-se de uma linda brincadeira. A nossa vida é uma brincadeira. Ela é curta, intensa, não termina, não acaba. Sempre fomos e estaremos sendo, estamos sendo agora, mas não do mesmo jeito. Não estarei do mesmo jeito depois desse encontro com essa rainha.
Leda Maria Martins: Quero agradecer o convite. Agradecer a vocês que nos deram o prazer de estar conosco nesses três dias. Agradecer ao Dudu pela companhia. Vocês viram como aprendemos com ele, não é só o que essas culturas, esses saberes têm a nos oferecer, mas é o modo como eles nos chegam. Não gosto muito do tablado, porque, de certa maneira, o tablado busca reproduzir a caixa italiana, a quarta parede. No teatro, há aquela ideia de uma parede invisível que separa o público daqueles que estão em cena. Na verdade, a forma espacializada que mais nos representa é a circular, a da gira, em que giram os saberes.
Tentamos combinar como seria a nossa conversa, mas não conseguimos e ela aconteceu. Quando eu pesquisava alguns documentos do século XVIII, em plena Inquisição – no Brasil também houve Inquisição – li que, ao interrogarem as mulheres ou as freiras, para saber se seriam condenadas ou não, o inquisidor perguntava se houve deleite. Se havia deleite, ela tinha que ir para a fogueira. Então, houve deleite conosco, gente? Isso é o principal! E sem confinamento.
Vamos terminar com um canto. Gosto demais do canto das travessias, das encruzilhadas. Para mim, ele é como o tempo espiralar, habita todas as temporalidades simultaneamente.
[Leda canta.]
Oi, zum, zum, zum
Lá no meio do mar.
Oi, zum, zum, zum
Lá no meio do mar.
Ajudai-nos rainha do mar
Ajudai-nos rainha do mar
Que manda na terra
Que manda no ar
Ajudai-nos rainha do mar.
....
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai,
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai.
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai,
Tilelê, tilelelê, ai, ai, ai.
....
Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô,
Tá caindo o fulô, ê, tá caindo fulô.
Lá do céu, cá na terra, ê, tá caindo fulô,
Lá do céu, cá na terra, ê, tá caindo fulô.
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Notas
1. MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
2. SOYINKA, Wole. Mito, literatura e o mundo africano. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
3. Leda Maria Martins mostra o seu livro Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela, publicado em 2011.
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LEDA MARIA MARTINS
Escritora, ensaísta e professora, é doutora em Letras/Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestra em Artes pela Indiana University. Fez pós-doutorado em Estudos de Performance pela New York University e em Performance e Rito pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi professora na UFMG, UFOP, UFF e Tisch School of the Arts. Publicou os livros Performances of Spiral Time, Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela, Afrografias da memória, A cena em sombras, entre outros. Recebeu o Prêmio Milú Villela pela Fundação Itaú Cultural em 2022, foi outorgada com o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes Integradas 2023 e homenageada pelo programa Ocupação Itaú Cultural, em São Paulo.
EDUARDO DAVID DE OLIVEIRA
Filósofo, educador, poeta e Babalawô, é doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em filosofia afrodescendente, cosmovisão africana e movimentos sociais. Autor de obras como Cosmovisão africana no Brasil: elementos para uma filosofia (2003) e Filosofia da ancestralidade: corpo e mito na filosofia da educação brasileira (2021), atua em pesquisas sobre ancestralidade, ética e libertação. Recentemente, lançou quatro volumes que compõe a coleção Estética da libertação africano-brasileira. Foi professor visitante em Moçambique e na Argentina. Coordena grupos de pesquisa sobre as culturas africana e afro-brasileira.
Publicado originalmente em:
MARTINS, Leda Maria; OLIVEIRA, Eduardo David de. Filosofias da ancestralidade: uma ecologia do sagrado. In: Cátedra FGV Pequena África 2024. Rio de Janeiro: FGV Conhecimento, 2025. p. 48-73.
