
Sobre
Quem é Leda Maria Martins?
Poeta, ensaísta, dramaturga, pesquisadora e Rainha de Nossa Senhora das Mercês, Leda Maria Martins é uma mestra dos saberes, uma extraordinária e notável artista das palavras. Reconhecida no Brasil e no exterior, é fonte de inspiração para artistas e intelectuais de vários campos do conhecimento.
Seu pensamento e suas obras, cuja potência desequilibra o eurocentrismo do pensamento hegemônico e interferem diretamente no fazer artístico nacional e internacional, são fundamentais e de extraordinária relevância para entender o Brasil e sua relação histórica com a negrura, assim como abre espaços para pensar o mundo, as ancestralidades e seus futuros.
Sobre esta admirável e extraordinária intelectual e artista, muitos já se manifestaram publicamente. Diana Taylor, professora da Universidade de Nova York, refere-se ao seu livro Performance do tempo espiral, como “brilhante e tão urgente quanto poético, uma leitura obrigatória”. O filósofo Eduardo Oliveira se dirige a ela como “Cartografia de saberes (...) artesã de tantos encantos”. E Dione Carlos, em um belo e comovente depoimento, diz que “sua majestade Leda Maria Martins” é uma “sacerdotisa de letras vivas”.
Artista, professora, Rainha. Um ser iluminado que comove e ilumina.
Por tudo que Leda Maria Martins representa, é uma honra inaugurar este espaço de referência sobre a sua obra e seus caminhos.
"Toda história é sempre sua invenção
qualquer memória é sempre um hiato
no vazio."
Memorial
Nasci no Rio de Janeiro, filha de Alzira Germana Martins e Evilázio Pedro Martins. Sou a caçula de cinco filhos. Quatro de meus irmãos morreram, crianças ainda. Após a morte de meu pai, minha mãe mudou-se para Belo Horizonte, onde vivo.
Minha família sempre esteve ligada à música e às danças. Minha avó fora amiga de Ataulfo Alves e acompanhava as pastorinhas. Conviviam com muitos músicos. Jovem ainda, minha mãe e minha tia foram passistas de Salgueiro. Mais tarde, Natal e Paulo da Portela levaram mamãe para ser passista de Portela e minha tia foi para Mangueira. De Minas, minha avó levara para o Rio os cantos de Minas. Já em BH, minha mãe se lembraria desses cantares todos. Uma de minhas mais ternas lembranças: apesar de todas as dificuldades e vicissitudes da vida, D. Alzira cantava e bailava, como uma bailarina primorosa. Eu, embevecida, aprendia os cantos, as danças, contar histórias e causos. Com as crianças da rua, participava das cirandas de roda e ouvia as cantigas sertanejas e de viola nas casas de vizinhos. E ía ao circo.
Aprendi a ler sozinha, aos quatro anos de idade. Pelas letras me deslumbrei. Lia tudo que encontrava. Me encantei. Uma infinita curiosidade. Minha mãezinha, ainda que com dificuldades financeiras, me comprava enciclopédias, livros de histórias infantis, dicionários. Mais tarde, aprendi a escrever. E escrevia, escrevia, poemas, histórias fantasiosas, ficções, dramaturgias. Reinventava o mundo. As letras deram asas ao meu imaginário e à fantasia. Encheram meu mundinho de poesia. Como poeta, publiquei Cantigas de Amares (1981) e Os dias anônimos (1999), além de poemas esparsos em periódicos e antologias, alguns já traduzidos e editados em inglês, francês e espanhol. Escrevi e publiquei dramaturgias, dirigi, atuei, produzi. Atuei como curadora de festivais e mostras. As letras e as artes me habitaram e revestiram de uma miríade de encantamentos.
Nos primeiros anos do ensino escolar, descobri a matemática e por ela também me apaixonei. Exímia em cálculos, resolvia teoremas difíceis, decifrava problemas complexos, me divertia com as equações e sonhava estudar matemática pura. Matemática era poesia, habitava meus universos e revestiu minha experiência poética e minhas e as linguagens artísticas com que laboro.
Aos cinco fui acolhida como Princesa Conga do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, para cumprir uma promessa. E no Reinado permaneço até hoje, agora como Rainha de Nossa Senhora das Mercês, substituindo minha mãe desde 2005, quando faleceu. No Reinado, também pequenina, me vesti pelos sons das caixas de percussão, pela variedade dos ritmos e timbres, pelas cantarias e ladainhas. Ali aprendi quem eram nossos negros ancestrais africanos, a ética do e para o coletivo, que a sacralidade nos habita e se manifesta em tudo, recobrindo toda a existência e nossa mais íntima relação com a natureza, da qual somos parte. Aprendi a celebrar os mais velhos e mesmo os que ainda vão nascer, nas espirais do tempo que nos constituem. Me foi ensinado que cabe às Majestades a nobre função de promover o equilíbrio das pessoas e da comunidade, harmonizar, ensinar, confortar, cuidar, curar, fazer vibrar e disseminar a energia vital, sendo veículo e passaporte do bem que é um benefício para tudo e todos, como uma oferenda. No Reinado também fui criada com dignidade e ali encontrei muitas das forças para enfrentar o racismo que quer nos aniquilar física e mentalmente e contra ele agir.
O Reinado tem sido meu corpo mastro. Meu corpo chão.
Hasteamento da bandeira de Nossa Senhora das Mercês. Agosto de 2024.
Fotos: Tamás Bodolay
A música me envolvia em tudo, inclusive nos festejos de Reinado. Ali também se cantava e dançava para celebrar o sagrado, com tambores, raros e inusitados instrumentos. Fui cativada por essas sonoridades dançantes, pelo modo alegre e festivo de celebrar os ancestrais e as divindades.
O teatro do sagrado me introduziu ao universo e paisagens das representações. Acompanhávamos a procissão de sexta-feira santa, ao longo da qual se dramatizavam passagens e cenas bíblicas, do Velho e do Novo testamentos. Em cada encruzilhada a Verônica mostrava um pano com a face ensanguentada de Jesus e entoava um belíssimo lamento, em latim, seguida pelo coro de três mulheres. Meu primeiro encontro com o teatro se deu assim. Mais tarde, na quarta-série do ensino primário, participei como protagonista de uma encenação escolar. E em casa, pelo radinho, escutava embevecida as rádio novelas.
Assim, minha vida tem sido matizada, vestida e afetada pelas artes, em suas diversas naturezas, roupagens e linguagens. Na minha já longeva atividade como professora, sempre utilizei-me dessas experiências criativas e artísticas, dentre elas as dos saberes tradicionais, como parte da metodologia pedagógica e das ambiências dos espaços de formação educacional. E em minhas criações estéticas, esses saberes se complementam e se integram.
Nas artes cênicas, fílmicas e visuais, tenho trabalhado, como artista e intelectual, com atores, bailarinos, coreógrafos, companhias de teatro e de dança, curadores, diretores, músicos, escultores, pintores, escritores, ministrado oficinas de dramaturgia e de práticas performáticas, sobre as matrizes performáticas negro referenciadas, especialmente as de origem Banto. Na área da música, os cantos do Reinado são componentes preciosos para que apresente, em palestras performáticas, as narrativas da Diáspora Negra através dos cantos e danças dos Reinados, um modo alterno de se recontar e performar a história. Fui curadora de vários festivais de arte. Realizei, como diretora de arte, várias exposições, dentre elas, Desconstrução do Esquecimento, sobre a ditadura civil militar no Brasil (2017) e Feminae (2018). Em 2023, a 35ª Edição da Bienal das Artes de São Paulo sob o tema Coreografias do (Im)possível, muito me honra ao incluir meu último livro, Performances do Tempo Espiralar: poéticas do corpo-tela, como uma de suas inspirações.
Teoricamente, alguns conceitos que venho elaborando têm tido repercussão nacional e internacional, dentre eles: encruzilhada (1987, 1991, 1997), teatro negro (1987 e 1991), afrografias e oralitura (1997), estética dos retalhos (2000), tempo espiralar (de 2000 a 2021), corpo-tela (2021). São noções que buscam explorar a ampla gama de conhecimento, epistemes e africanias presentes nas práticas artístico-culturais advindas das matrizes negro-africanas, de suas reelaborações e transcriações nas Américas, principalmente no Brasil. E que dizem respeito às corporeidades, ao corpo como lugar de inscrição de memória e de saber e a um repertório muito amplo e rico de saberes, principalmente os relacionados a cosmo percepções, filosofia, estética e ética afro referenciados. Nessas proposições e práticas performáticas, poeticamente busco entrelaçar os repertórios e acervos das performances orais, com as reflexões bibliográficas escritas; sempre cruzando as oralituras com a escrituras, sem ilusórias hierarquias. Mas com muito deleite.
A vida tem sido muitas vezes severina. O assassinato de meu único filho e parente, Marco Rodrigo Ribeiro Martins, em 2014, me devastou. Apesar do sofrimento indescritível e da monstruosa dor; como rainha, conduzi, com os cantares do Reinado, o cerimonial que o permitisse habitar a ancestralidade. Para ele cantei, com os congadeiros e amigos que me acompanharam nos ritos e cerimônias fúnebres. Meus parentescos afetivos. Minhas famílias simbólicas.
Mas a vida tem também me contemplado com inúmeras situações de alegrias, gestos de generosidade, solidariedade, ternuras e múltiplos carinhos. Sou poeta e reinadeira. Sempre comigo estão meus ancestres e as inúmeras relações afetivas que iluminam minhas nzilas, meus caminhos. Cantar, dançar, batucar, ler, aprender, escrever, louvar e celebrar. Esses são meus passos e movimentos. Aos que me acolhem nessas travessias, só me resta envolvê-los com meus mais sinceros afetos e sempre repetir: Zâmbi pague. Eu agradeço.

Ficha Técnica
Idealização: Elias Gibran e Pedro Kalil
Produção: Napele Produções Artísticas
Design: Mariana Misk (OESTE)
Programação: River Company
Textos: Flávia Perét contribuiu em Nzilas, Conceitos e Obras / Revisão: Olívia Almeida
Fotos: Rafael Motta
Gestão administrativa: Ângelo Batista
Citações na página inicial extraídas de Leda Maria Martins em Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021, pp. 81, 36, 36, 23, 88.








