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Além de professora e pesquisadora, Leda Maria Martins é autora de livros de teoria crítica no campo das artes da cena e da teoria literária. As obras O moderno teatro de Qorpo-Santo, A cena em sombras, Afrografias da Memória: o Reinado do Rosário no Jatobá e Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela contribuíram para dar materialidade e visibilidade à rigorosa fortuna crítica e teórica desta que é, atualmente, uma das principais intelectuais brasileiras. Além desse importante trabalho, pelo qual é reconhecida no Brasil e no exterior, Leda Maria Martins é também poeta, tendo publicado os livros de poesia Cantigas de Amares e Os dias anônimos. O livro Performances do tempo espiralar será publicado em 2025 nos Estados Unidos pela Duke University Press. Neste espaço você conhece um pouco mais sobre cada uma dessas obras.

2025
A fina lâmina da palavra
Editora: Cobogó
Ano da publicação: 2025
Idioma: Português
ISBN 978-65-5691-179-3
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A fina lâmina da palavra reúne ensaios de Leda Maria Martins, autora que é uma das principais referências do pensamento brasileiro contemporâneo. Neste livro, a poeta, ensaísta, dramaturga e professora apresenta o que descreve como “exercícios de pensamentos” sobre temas que lhe são prazerosos e instigantes objetos de reflexão.
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Entre eles, estão o teatro contemporâneo feito por nomes como Jhonny Salaberg e Dione Carlos; o teatro moderno de Nelson Rodrigues com Senhora dos Afogados; a literatura de Machado de Assis; a poesia de Solano Trindade; e as artes visuais, em textos sobre Sonia Gomes e Jota Mombaça.
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Este conjunto de textos críticos, que pode ser lido como uma antologia da poética negra, evidencia a vitalidade do pensamento de Leda Maria Martins e como ele reverbera em obras distintas, em constante diálogo com seus outros livros e claves teóricas — a partir de conceitos como tempo espiralar, oralitura, encruzilhada e corpo-tela, que inspiram tantas produções artísticas, acadêmicas e curatoriais na atualidade.
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“Neste couro branco do papel, nesses pergaminhos, o insubmisso trabalho com a retórica produz insurgências não apenas na inovação temática e social, mas, principalmente, na elaboração poética com as tecnologias da linguagem, que privilegia construções e formas de outras matrizes textuais, orais e escritas, dentre elas as dos repertórios e acervos africanos e afro-brasileiros, em experimentações que atravessam e incidem no cânone literário convencional, nele introduzindo novas perspectivas de elaboração e de criação dos idiomas estéticos, e que, transmutando gêneros e formatos, transformam a experiência criativa.”
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2021 / 2025
Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela
Editora: Cobogó
Ano da publicação: 2021
Idioma: Português
ISBN-10: 6556910430
ISBN-13: 978-6556910437
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Editora: Duke University
Ano da publicação: 2025
Idioma: Inglês
ISBN-10:1478032553 ISBN-13:978-1478032557
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Em Performances do Tempo Espiralar, poéticas do corpo-tela, Leda Maria Martins retoma e expande o conceito de tempo espiralar para pensar como vários saberes tradicionais e milenares se atualizam, por meio de estéticas que se apoiam nas corporeidades, trazendo à tona conhecimentos ancestrais, dentre eles a concepção das temporalidades curvas, em espirais. Para Leda Maria Martins, “o corpo é lugar de inscrição do saber e da memória”, e nesses saberes incluem-se os relativos à temporalidade curva espiralar. Nesta obra, é também apresentada, pela primeira vez em livro, o conceito de corpo-tela, que nos instiga a pensar o corpo e as inscrições da corporeidade como dispositivos de enunciação e grafias da memória do conhecimento e das experiências pessoais e coletivas. O livro foi publicado pela editora Cobogó, em 2021, e se tornou um grande sucesso editorial.​
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“No corpo o tempo bailarina. E em seus movimentos funda o ser no tempo, inscrevendo-o como temporalidade. Dos gestos primevos é que respira a voz, inspirando nos seres o sopro divino, o hálito originário que circunscreve em torno de si e em si mesmo o sagrado. Antes de uma cronologia, o tempo é uma ontologia, uma paisagem habitada pelas infâncias do corpo, uma andança anterior à progressão, um modo de predispor os seres no cosmos. O tempo inaugura os seres no próprio tempo e os inscreve em suas rítmicas cinesias.
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No tempo o corpo bailarina.
No corpo o tempo espirala.
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A ancestralidade, em muitas culturas, é um conceito fundador, espargido e imbuído em todas as práticas sociais, exprimindo uma apreensão do sujeito e do cosmos, em todos os seus âmbitos, desde as relações familiares mais íntimas, às práticas e expressões sociais e comunais mais amplas e mais diversificadas. De que modos, então, essa sofisticada vivência da ancestralidade e a presença imanente do ancestre na vida cotidiana dos sujeitos também inscrevem uma singular compreensão e experiência da temporalidade, como uma sophya?
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De que forma os tempos e intervalos dos calendários também marcam e dilatam a concepção de um tempo que se curva para frente e para trás, simultaneamente, sempre em processo de prospecção e de retrospecção, de rememoração e de devir simultâneos?​ Espiralar é o que, no meu entendimento, melhor ilustra essa percepção, concepção e experiência. As composições que se seguem visam contribuir para a ideia de que o tempo pode ser ontologicamente experimentado como movimentos de reversibilidade, dilatação e contenção, não-linearidade, descontinuidade, contração e descontração, simultaneidade das instâncias presente, passado e futuro, como experiências ontológica e cosmológica que têm como princípio básico do corpo não o repouso, como em Aristóteles, mas, sim, o movimento. Nas temporalidades curvas, tempo e memória são imagens que se refletem.”
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1999
Os dias anônimos
Editora: 7 Letras
Ano de publicação: 1999
Idioma: Português
ISBN-10: 85-7388-155-0
ISBN-13: 978-8573881554
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Segundo livro de poemas, dividido em três partes – Noturnos, Árias e Figurações –, que explora várias poéticas e temas, dentre eles a experiência anônima de vivência em espacialidades de cidades cosmopolitas e o entendimento de se sentir, simultaneamente, ausente e participante, reconhecendo, pela palavra poética, a própria linhagem e seus desvios. O livro foi publicado em 1999 pela editora carioca 7 Letras.
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Os dias anônimos
A rua apressada
de vultos
me atravessa.
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O arrulho desencantado
dos passos
me arremesa.
Os resíduos adormecidos
dos dias
me atropelam.
Só o olhar hesita.
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Mundano olhar
onde se dilui
na inoperância da ternura
minha desumana cidadania urbana.
1997 / 2021
Afrografias da memória: o Reinado do Rosário no Jatobá
Editora: MAZZA EDIÇÕES
Ano da primeira publicação: 1997
Idioma: Português
ISBN-10: 6557490257
ISBN-13: 978-6557490259
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O livro nasce de uma densa pesquisa histórica e oral encomendada em 1993 por João Lopes, à época capitão-mor do Reinado do Jatobá, comunidade de devoção a Nossa Senhora do Rosário, localizada na região do Barreiro, em Belo Horizonte. O livro apresenta, pela primeira vez, o conceito de oralitura como forma de matizar esteticamente a sofisticada e rica experiência das performances da oralidade, como as do Reinado, manifestação cultural e religiosa de origem banto. Nesta obra, Leda Maria Martins enlaça a palavra escrita com as vozes, cores, danças e melodias presentes nas performances rituais do Reinado, para apresentar a multiplicidade sinestésica, epistemológica e estética dos saberes e ritos africanos preservados no Brasil e atualizados a partir de uma intensa memória do corpo e dos gestos. A obra foi publicada em 1997, numa parceria entre as editoras Perspectiva, de São Paulo, e Mazza Edições, de Belo Horizonte; revisada e atualizada, foi reeditada em 2021.
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“Nos Reinados, a palavra, como hálito, condensa o legado ancestral, seu poder inaugural, e o movimento prospectivo da transcriação, encenado no ato da transmissão. O evento narrado dramatiza o sujeito num percurso curvilíneo, presença crivada de ausência, memória resvalada de esquecimento, trancas aneladas na própria enunciação do narrado.​ Assim, na oralitura dos reinados negros, a memória, insinuante, se enviesa nas falas, se esvazia e se preenche de sentido, como um lugar numinoso, pletora de significantes... (...)​ Os congadeiros do Jatobá emprestaram-me suas palavras e sua memória e com elas escreveu-se este livro, constituído por muitas alas e timbres e pelas migrações das vozes narrativas. Em reverências as coroas, tambores, bandeiras, bastões, tamboris e ao rosário de contas negras do reinado, saúdo a todos os congadeiros e peço licença para contar um pouco da história dos reinos negros e do Reinado de Nossa Senhora do Rosario do Jatobá, saravando Zambi, ser supremo, e Undamba Berê Berê, a mãe do Rosario, rainha da terra e senhora dos mares e do ar:
E um novo dia
e um novo dia
deixa o dia clarear
peco licença
com licença
deixa o meu gunga passar, oiá”
Canto de Moçambique

1995 / 2023
A cena em sombras
Editora: Editora Perspectiva
Ano de publicação: 1995
Idioma: Português
ASIN: B0CJRSYMVT
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A obra é resultado da pesquisa de doutorado realizada na Faculdade de Letras da UFMG sobre o Teatro Experimental do Negro (TEN) – grupo de teatro brasileiro idealizado e criado por Abdias do Nascimento e Maria Nascimento, em 1944 – e sobre um conjunto de peças teatrais estadunidenses, sobretudo da década de 1960, ligadas ao movimento Black Arts Movement. O livro, fruto de uma criteriosa pesquisa, apresenta a memória cultural e dialógica do teatro negro nas Américas a partir de conceitos originais e inéditos, como o de encruzilhada. A obra foi publicada pela renomada coleção Debates, da editora Perspectiva, de São Paulo, em 1995. Em 2023, a obra foi revisada e reeditada.
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“No termo que designa o objeto, negro, inscreve-se um primeiro desafio. Do que se fala, quando se fala negro? Da cor do dramaturgo ou ator? Do tema? Da cultura? Da raça? Do sujeito? Na verdade, de tudo um pouco, ou melhor, fala-se da relação de tudo. O negro, a negrura, não traduz, neste trabalho, a substância ou a essência de um sujeito, de uma raça ou cultura, nem um simples motivo temático recorrente. O termo aponta, antes de tudo, uma noção textual, dramática e cênica, representativa. Essa noção recupera o sujeito cotidiano, referencial, como uma instância da enunciação e do enunciado, que se faz e se constrói no tecido do discurso dramático e na tessitura da representação. A negrura não é pensada, aqui, como topos detentor de um sentido metafísico, ou um absoluto. Ela não é apreendida, afinal, como uma essência, mas, antes, como um conceito semiótico, definido por uma rede de relações.”


1991
O moderno teatro de Qorpo-Santo
Editora: UFMG / UFOP
Ano de publicação: 1991
Idioma: Português
ISBN-10: 8570410522
ISBN-13: 978-8570410528
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Primeiro livro teórico, resultado da pesquisa de mestrado que a autora realizou na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. O livro aborda a obra teatral de Qorpo-Santo, figura polêmica da dramaturgia brasileira do século XIX, por seu caráter de modernidade e ruptura com as convenções teatrais da época. Neste livro, realiza-se um importante trabalho de resgate da memória dramatúrgica brasileira, evidenciando o ineditismo e a originalidade estética de Qorpo-Santo. O livro foi publicado em parceria com as editoras da UFMG e da UFOP, em 1991.
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“O elemento básico das peças de Qorpo-Santo, aqui estudadas como metateatro, é esta dramatização constante do real, que traz para o primeiro plano o teatro como espetáculo e representação. Nas suas peças, o autor gaúcho foge à criação teatral como reprodução fotográfica da realidade. construindo uma dramaturgia que revela constantemente seu caráter de artifício, chamando a atenção para a criação artística em si. Como características do metateatro em Qorpo-Santo destacam-se a intervenção constante do duplo do autor, expondo os mecanismos de sua criação; o mundo apresentado como palco, universo caracterizado como representação constante, e a primazia da imaginação que transcende o real exterior, através de cenas que contêm em si sua própria realidade.”

1983
Cantigas de amares
Editora: Independente
Ano de publicação: 1983
Idioma: Português
Primeiro livro de poemas, publicado em 1983 de forma independente. O livro, com ilustrações de Regina Coeli Rennó, reúne uma série de poemas que dialogam com o cancioneiro medieval, principalmente as cantigas de amor e as cantigas de amigo, em dialogismo formal com essas poéticas, seja a partir de pequenas cenas, de modo circular, como na estrutura das cantigas, seja na perspectiva do discurso amoroso, que manifesta múltiplos enlaces e desenlaces dos encontros afetivos.
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Vesperal
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O canto do leito
redes turbinas
no cio da tarde
de lareiras e trevos.
Carícias serpentes
o tango do leito
nos dentes suspeitos
o coice adivinha.
Nos panos na cerca
ramos quintais
o coito do linho
de margens e fios.
A carne da pele
castelos tridentes
no furto dos ventres
de cercanais e rios.