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Nzilas

Leda Maria Martins é uma das principais referências do pensamento brasileiro contemporâneo.

É escritora, poeta, ensaísta, dramaturga, curadora, crítica de arte, pesquisadora e professora aposentada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Desde 2005, ocupa a função  de Rainha de Nossa Senhora das Mercês, na Irmandade Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, em Belo Horizonte.

 

Desde o final dos anos 1970, Leda Maria Martins desenvolve um intenso labor de criação teórica que tem aportado contribuições imprescindíveis para se pensar as artes, especialmente o teatro, a performance e as manifestações culturais como o Reinado. Alguns dos conceitos desenvolvidos pela pesquisadora, tais como teatro negro, encruzilhada, afrografias, oralitura, tempo espiralar, estética dos retalhos  e corpo-tela, são claves teóricas, filosóficas, poéticas e políticas construídas a partir de uma intensa reflexão e da incessante busca por matrizes conceituais e epistemológicas capazes de propor alternativas teóricas à hegemonia do pensamento branco e ocidental.

 

Sua produção teórica como intelectual negra marca, neste sentido, um importante ponto de clivagem no pensamento brasileiro e sua história dependência do pensamento europeu. Desde o doutorado, defendido em 1991, na Faculdade de Letras da UFMG, à publicação do seu mais recente livro, Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela, em 2021, Leda Maria Martins vem construindo um denso arco conceitual a partir da investigação de diferentes filosofias e cosmo percepções, entrecruzando variadas  estéticas e epistemologias, das mais tradicionais às mais contemporâneas. 

 

Em 2017, foi homenageada com a criação do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras, criado pelo BDMG Cultural em reconhecimento a sua contribuição na área das Artes Cênicas Negras, e em 2022 foi contemplada com o Prêmio Milu Villela, outorgado pelo Itaú Cultural, na categoria Aprender. Em 2023 lhe foi outorgado o Prêmio FUNARTE de Mestre das Artes Integradas.  Em 2023, sua obra foi um dos fundamentos do projeto curatorial da 35ª Bienal de São Paulo. Em 2024 e 2025 foi homenageada com a Ocupação Leda Maria Martins pelo Itaú Cultural, em São Paulo. Ainda em 2025, o livro Performances do tempo espiralar foi publicado pela Duke University Press com o título Performances of Spiral Time.​

Encerramento Ocupação Leda Maria Martins, Itaú Cultural-SP. Março de 2025. 
Fotos: Natália Gomes

Infância

Leda Maria Martins nasceu no Rio de Janeiro. Ainda na infância, perdeu o pai e, em decorrência dessa morte, sua mãe, Dona Alzira Germana Martins, mudou-se para Belo Horizonte,  com Leda e sua irmã mais velha, Ana Maria Martins, para Belo Horizonte, cidade onde alguns familiares maternos viviam. Na capital mineira, mãe e filhas viveram, em vários bairros, dentre eles o bairro Tirol e o Jatobá, ambos localizados na Região do Barreiro, em Belo Horizonte. 

A mãe, uma mulher forte, alegre e bastante espiritualizada, é uma figura central na biografia e na trajetória acadêmica da filha. Dona Alzira trabalhou durante toda a vida como quitandeira, cozinheira e cantineira. Era uma mulher que possuía um vasto conhecimento acerca dos poderes de cura de plantas, ervas e chá e uma reconhecida e amada rezadeira. 

Como muitas mulheres negras que precisam sair para trabalhar, mas não têm com quem deixar os filhos, Dona Alzira deixava a filha caçula sozinha em casa. Foi a partir desses momentos de solidão que nasceu o fascínio de Leda Maria Martins pela leitura e pelas palavras. Em casa, a menina folheava com curiosidade os poucos livros e revistas que a mãe havia trazido do Rio de Janeiro. Mesmo sem saber ler, tentava decifrar o emaranhado de letras. Certo dia, ao correr na rua com a mãe, a menina conseguiu ler o que estava escrito num outdoor. A partir desse aprendizado, Leda Maria Martins se tornou uma leitora ávida e apaixonada.

A mãe percebeu o interesse da filha e se esforçou para comprar livros de história e enciclopédias. Leda Maria Martins passava horas em casa lendo. Uma vizinha um dia comentou com Dona Alzira que era frequente encontrar a menina em cima do pé de goiaba com um livro nas mãos. Algum tempo depois, também aproveitou e começou a aventurar-se pela escrita de poemas, contos, textos de ficção científica e peças de teatro. Ela ainda não tinha completado oito anos e já escrevia avidamente. 

Assim como a leitura e a escrita, a matemática também foi uma paixão descoberta na infância. Desde criança, Leda Maria Martins tinha habilidade com os números e as equações, conseguindo solucionar, com facilidade, cálculos complexos, o que chamava a atenção dos professores. O interesse e o encantamento pela disciplina eram tão intensos que ela sonhava estudar matemática ou, talvez, arquitetura.

Outro interesse que também surgiu na infância foi o teatro. Na escola, Leda Maria Martins participava de grupos de teatro e atuava em pequenas montagens. Simultaneamente, lia – assim como acontecia com a literatura – dramaturgia. Além do teatro, era também fascinada pelos rituais religiosos que misturavam música, canto, dança e encenação, como as procissões da Semana Santa e os festejos para Nossa Senhora do Rosário que começou a frequentar com a mãe na infância. E amava o circo.

Foi nesse ambiente de precariedade econômica, mas de extrema riqueza cultural e estética e de um afeto materno intenso, que Leda Maria Martins foi criada.

Leda, seu filho Marco Rodrigo Ribeiro Matins e sua mãe Alzira Germana Martins.
Acervo pessoal.

Reinado do Jatobá: comunidade de afeto e devoção à Nossa Senhora

Depois que mãe e filhas chegaram do Rio de Janeiro para morar no Barreiro, em Belo Horizonte, outra morte atingiu esta pequena família. A irmã mais velha faleceu em decorrência de um grave quadro de meningite. No início da década de 1960, Dona Alzira, que já havia perdido o marido, se desdobrou para criar sozinha sua única filha. Alguns anos depois, a caçula também foi acometida por uma misteriosa doença. Durante meses, Leda Maria Martins lutou entre a vida e a morte. Desacreditada pelos médicos, Dona Alzira fez uma promessa à Nossa Senhora do Rosário. Se a filha se curasse, ela levaria a menina para ser princesa Conga em um Reinado de Nossa Senhora do Rosário. A partir dessa experiência limite e do milagre concedido por Nossa Senhora do Rosário, mãe e filha iniciaram uma intensa vivência e participação no Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá. 

A coroação de reis e rainhas congos e os festejos e rituais de dança e de música que prestam homenagem à Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Nossa Senhora das Mercês, dentre outros santos, são uma das inúmeras manifestações criadas pelo povo negro escravizado, para manter vivas suas crenças, saberes ancestrais e ritos religiosos. O Reinado é uma manifestação religiosa e cultural complexa, atravessada por ritmos, percussões, cantos, gestos, performances e vocalidades que evocam o passado do povo negro e sua travessia marítima até chegar ao Brasil.

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Durante 10 anos, Leda Maria Martins foi princesa conga de Dona Niquinha e Chico Lopes, então Rainha Conga e Rei Congo da Irmandade. Posteriormente, em 1992, Dona Alzira foi coroada Rainha de Nossa Senhora das Mercês, cargo que ocupou até a data do seu falecimento, em 2005, e que, desde então, é ocupado pela filha.

Além de integrante ativa desta importante comunidade de devoção do povo negro, no cargo de Rainha de Nossa Senhora das Mercês, Leda Maria Martins desempenha, também, o papel de tradutora e guardiã das narrativas (orais e escritas) que contam a história da Irmandade.

Em 1993, João Lopes, então Capitão-Mor do Reinado, convocou Leda Maria Martins, que nesta época já havia concluído o doutorado na UFMG, e já era professora universitária e pesquisadora, a escrever um livro que registrasse a origem, os cantos, os ritmos e os preceitos e rituais sagrados do Reinado. Tem início aí um intenso processo de pesquisa histórica que culmina com a escrita e a publicação, pela Editora Perspectiva, em 1997, da obra Afrografias da Memória: o Reinado do Rosário do Jatobá, livro reeditado em 2021.

Cortejo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá na praia de Copacabana - RJ.

Fevereiro de 2023. Fotos: Gibran

Trajetória acadêmica

A trajetória acadêmica de Leda Maria Martins iniciou-se na Escola Estadual Cláudio Brandão, no Barreiro, onde cursou o ensino fundamental. O ginásio também foi realizado numa escola do bairro, a Escola Estadual Domiciano Vieira. Finalizado o ginásio, prestou o exame de admissão para ingressar no curso de magistério do Instituto de Educação. Naquela época, o Instituto era considerado uma das melhores escolas de Belo Horizonte. Lá, ao perceber as dificuldades financeiras que a aluna enfrentava para chegar à escola, lhe deram uma meia-bolsa para ajudar a custear os gastos com transporte, material escolar e merenda.

Graduação

Entre os anos 1973 e 1977, Leda Maria Martins cursou Letras na Universidade Federal de Minas Gerais. A entrada na universidade pública foi uma conquista importante, visto que ela foi a primeira mulher da sua comunidade e da família a estudar e se formar em um curso superior.

Mestrado

Finalizada a graduação, Leda Maria Martins foi selecionada para realizar o mestrado em Artes na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. O objeto de pesquisa foi o teatro do dramaturgo brasileiro, do século 19, Qorpo-Santo. Em sua pesquisa, analisou como o autor adiantou-se ao propor técnicas e linguagens teatrais que seriam amplamente utilizados pelo Teatro do Absurdo e por autores contemporâneos, como Beckett e Ionesco. A dissertação foi defendida em 1981. Dez anos depois, a pesquisa realizada nos Estados Unidos originou seu primeiro livro teórico, O moderno teatro de Qorpo-Santo, publicado em parceria pelas editoras universitárias da UFMG e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Doutorado

Entre os anos de 1987 e 1991, Leda Maria Martins realizou doutorado em Estudos Literários na Faculdade de Letras da UFMG, sob orientação da professora doutora Ana Lúcia Gazolla. Em sua pesquisa de doutorado, fez uma análise comparativa entre o teatro negro no Brasil e nos Estados Unidos, tendo como principal referência, no Brasil, o Teatro Experimental do Negro (TEN). Foi durante a pesquisa e a escrita da tese que formulou o conceito de encruzilhada, operador teórico-metodológico que propõe a articulação, não hierarquizada, entre as epistemologias e os saberes africanos e afro-brasileiros. A tese foi publicada em 1995, pela editora Perspectiva, sob o título A cena em sombras, constituindo-se, desde seu lançamento, uma das mais importantes referências teóricas acerca das poéticas, práticas e dramaturgias do teatro negro.

Pós-doutorado

A partir do final da década de 1990, Leda Maria Martins iniciou uma série de pós-doutorados, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Primeiramente, realizou seus estudos no renomado Centro de Estudos em Performance, da Universidade de Nova York, no Tisch School of the Arts, entre os anos de 1999 e 2000. Uma década depois, em 2009, retornou à Universidade de Nova York para realizar mais uma pesquisa de pós-doutoramento, também sobre performance. No mesmo ano, realizou outro pós-doc, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em performances, ritos e teatralidade.

Leda em 1978, quando cursava o Mestrado em artes pela Universidade de Indiana, no Estados Unidos.
Acervo pessoal.

Docência

Por cinco anos foi professora do Ensino Fundamental na Escola Estadual Carmo Giffoni. Leda Maria Martins já completou mais de quarenta anos de dedicação à docência no ensino superior. A vasta e significativa trajetória como professora universitária, gestora e pesquisadora acadêmica iniciou-se em 1981, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), quando retornou ao Brasil, depois de concluir o mestrado nos Estados Unidos, e foi convidada a implantar o curso de Letras da universidade. Além de atuar como professora de disciplinas de literatura e teatro, ocupou diversos cargos de gestão. Foi chefe do Departamento de Letras, ajudando a construir a estrutura curricular do curso regular (graduação), bem como da pós-graduação. É importante ressaltar que grande parte do trabalho como chefe do Departamento de Letras da UFOP foi realizado ainda no período da ditadura militar, em um contexto de muita repressão e perseguição a artistas e intelectuais.

Na UFOP, Leda Maria Martins foi Diretora do Instituto de Artes e Cultura (IAC), de 1991 a 1992, reativando a especialização em História da Arte, com ênfase na história do Barroco. Ainda na UFOP, participou como diretora teatral e dramaturga da montagem de uma série de peças teatrais. Trabalhou na UFOP até dezembro de 1992, ano em que pediu demissão para assumir, como concursada, o cargo de professora adjunta na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Na Universidade Federal de Minas Gerais, Leda Maria Martins atuou como professora na graduação e na pós-graduação, como pesquisadora e como gestora. Entre os anos 1998 e 1999, foi presidente da comissão de criação e de implementação do curso de Artes Cênicas da UFMG. Entre 2010 e 2012, coordenou o Programa de Pós-graduação em Estudos Literários. Também foi diretora de Ação Cultural da UFMG, entre 2014 e 2018. Em 2017, realizou a curadoria e a direção artística da exposição Desconstrução do esquecimento: golpe, anistia e justiça de transição. Aposentou-se em 2018. Em 2023 e 2024, foi  professora convidada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no qual ministrou disciplinas sobre teatro, performances e literatura.

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