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De Cynthia Barra para Leda Martins

Laroyê, Èṣù

 

No azul de um manto azul

 

Zum, zum zum

Lá no meio do mar

Peço a bençã a minha mãe, Iyalorixá Marlene de Nanã, para falar com vocês, nesta noite, com os pés ao alcance das águas.

 

Pedindo licença as minhas mais velhas, aos meus mais velhos, aos mais novos, aos meus iguais, gostaria de começar agradecendo e saudando os orixás Exu e Ogum, orixás que, desde o lugar que falo, são forças que regem as comunicações e as tecnologias.

 

Saluba, D. Nanã, senhora de meu Orí. E, na gira da palavra, na companhia de minha Mãe, saúdo as linhagens de minha ancestralidade no caminho das águas.

 

Esse longo caminho longo que é bantu, é nagô-vodum, é caboclo, caminhos de entre mundos, milonga de minhas dores e de muitos encontros: caminhos e saberes de águas, de folhas e da junção de pembas.

Zum, zum zum
Lá no meio do mar



Saúdo a grande homenageada deste evento, Rainha coroada, Majestade do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá, a Sra Leda Maria Martins, aqui conosco, em presença, filha de Dona Alzira Germana Martins, Rainha Coroada de Nossa Senhora das Mercês, do Reinado do Rosário de Jatobá, em memória.

Saúdo a ancestralidade dos Reinos Bantos em Terras de Y-Ata-Obá, em especial, celebro, hoje, a memória viva do Sr João Lopes, capitão-mor dessa congregação, anganga muquiche, Sacerdote, mestre de cerimônias rituais do Reinado de Jotabá, aquele que, em novembro de 1993, em um cair da noite, pediu à Sra Leda para escrever, para traduzir, para performar na forma-livro, a história do Reinado.

“A comunidade são os mortos e os vivos”, assim nos diz um provérbio bantu-kongo traduzido por Tiganá Santanta, a partir do diálogo com a obra de Fu-Kiau.

Assim sendo, saudando a Sra Leda Maria Martins e a memória de Dona Alzira Germana Martins e de Sr João Lopes, sei que também faço, neste momento, com firmeza e respeito, a minha saudação a todas as linhagens de Reis e Rainhas dos povos bantu que compõem a memória da irmandade do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá e seus filhos e filhas nascidos Angola, Benguela, Calundá, Cabinda, Congo, Moçambique, Monjolo.

Apropriando-me da desmemória que alcança minha existência histórica neste mundo, também gostaria de saudar todos aqueles e aquelas que, tendo habitado as Terras de Y-Ata-Obá, não sei ainda como nomear os seus nomes de origem e suas linhagens de reis e rainhas.

Esta noite é uma noite de celebração das Afrografias de nossas Memórias. Afrografias que, no espaço acadêmico e na cena das artes, dentro e fora da academia, em muito se tornam visíveis e mais bem compreendidas pelo trabalho e pelas mãos de profa Dra Leda Maria Martins.

Gostaria de cumprimentar e agradecer imensamente aos professores Doutores Érico JosÉ, da UnB, e Alessandra Dumas, da UFBA, pelo convite para participar deste Seminário.

Cumprimento meu colega nesta conversa de hoje, Dr Marcos Alexandre, da UFMG.

Cumprimento a Diretora do Instituto de Artes da UnB, a Profa Dra Fátima Aparecida Santos, cumprimento a Coordenadora do PPG-CEN, a Profa Dra Alice Stefânia, e toda a equipe técnica que está dando suporte a este evento, tornando-o possível.

De maneira muito afetuosa, gostaria de cumprimentar todes que estão nos acompanhando via chat e, em especial, aos integrantes do Curso de Extensão Decolonialidades nas Artes Cênicas, com quem tenho tido alegria de encontrar às regularmente às quintas-feira à noite, de quinze em quinze, cumprimento com alegria  estudantes do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais / PPGER e da UFSB que estão presentes, aos querides amigues que vieram, à minha família ancestral do Terreiro Vintém de Prata (Ilé Obìnrín Omi Àṣẹ Ayira), à minha irmã de barco, Monalungo, filha de Oxum e do Terreiro Matamba Tombenci Neto.

E gostaria muito de agradecer a Alex Girasssol, companhia inestimável nas madrugadas em que escrevi esta fala.

Sim, muito a agradecer. Que tenhamos um ótimo encontro, que continuemos a ter bons encontros.


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Sinto-me muito feliz de estar aqui hoje e também me sinto imensamente ferida ao longo dos últimos dias, dos últimos meses.

Por onde re-começar e como sustentar minha fala hoje? Como sustentar a alegria e a celebração deste Encontro sem deixar de acolher o Luto e a Luta imensa do povo preto, todos os dias, e muito intensificada, dolorosamente recrudescida, desde o início da pandemia do covid-19 no Brasil?

Quase sem conseguir conter o choro, leio uma notícia no site do Geledés e vejo imagens de sangue que não desejo ver nas mídias de grandes jornais. Manhã do dia 06 de maio de 2021, zona norte, Rio de Janeiro. Leio o relato de Joel Luiz Costa, morador do Jacarezinho e coordenador-executivo do Instituto de Defesa da População Negra. [...]


É o canto da sereia
Que me faz entristecer
Parece que ela advinha
O que vai acontecer.


Ajudai-me, rainha do mar.

São, hoje,  mais de 410.000 brasileiros os que já morreram em decorrência da pandemia. Para pesquisadores e agentes de saúde pública, temos em curso no Brasil um crime contra a humanidade, que está ocorrendo agora mesmo, que vem ocorrendo de março de 2020 a maio de 2021: um crime em curso?

Sei que experimentamos cotidianamente e vivemos pavorosamente todos os dias o Brasil das colonialidades perenes. Alguns, algumas de nós observamos atentamente aquilo que Achille Mbembe traduz como as garras da necropolítica como uma política do Estado para as vidas negras.

Pergunto-me: até quando? E tudo que falo e penso, falo e penso, enquanto o Brasil continua a funcionar como “um moinho de gastar gente” há mais de 520 anos?

 

É o canto da sereia
Que me faz entristecer
Parece que ela advinha
O que vai acontecer.


Ajudai-me, rainha do mar.


Pergunto-me: tombamos e seguimos de pé? No último sábado, dia 07 de maio, em busca de um começo para a estruturação de minha fala de hoje, re-escutei uma aula-em-conversa, disponível no Youtube, no canal do Melanina Digital.

Num dado trecho, ouvi assim, mais ou menos assim, palavras vindas dos espirais do tempo, compartilhadas pela profa Dra Leda Maria Martins, que trago aqui para minha fala, a seguir, numa versão editada e transcrita, transcriada em alguma medida, porque bastante editada:

O que tenho a dizer sobre algumas das possibilidades de pensar o Teatro Negro na Contemporaneidade? Como usar a memória ... o repertório das manifestações religiosas não necessariamente trazendo o Orixá para a cena...mas, manejando um dado repertório, seja de narrativas, seja de poesia, seja de performatividade, do corpo, da vida e das corporiedades negras, para alimentar as nossas cenas? [...]

É uma possibilidade, uma das possibilidades existentes para nós, não muito mais que isso? Uma possibilidade. Uma possibilidade entre tantas que estão ao redor de nós. Por exemplo, a dança dos Orixás.

A dança entendida como um modo de traduzir, de inscrever em linguagem-pensamento, um logos dançante. Ou seja, a dança como gesto e pensamento, como princípio de inscrição de homens e mulheres e crianças no mundo. Por exemplo, a dança como um modo de experimentar e traduzir o conhecimento das águas. (Leda Maria Martins, 2019)

As águas são fundamentais para nossa historiografia, nos diz profa Leda, para a história negra. No Reinado, há um canto que traduz a passagem, o trânsito, a memória-experiência de sujeitos forçosamente embarcados em navios negreiros, um cântico cantado em mar aberto.

Algumas das estrofes desse cântico, posso ler assim:

Ajudai-me, rainha do mar.
Ajudai-me, rainha do mar.

Que manda na terra
Que manda no ar

Zum, zum zum
Lá no meio do mar
Zum, zum zum
Lá no meio do mar

É o canto da sereia
Que me faz entristecer
Parece que ela advinha
O que vai acontecer.

Ajudai-me, rainha do mar.
Ajudai-me, rainha do mar.
Que manda na terra
Que manda no ar


Escuto atentamente, presto atenção neste ponto, “olhe para você ver”, “olhe para você ver”, nos diz profa Leda (2019):

“Há uma rainha do mar, que manda na terra, que manda ar, para o sujeito que está em estado de água e de travessia, há uma rainha do mar.

E, nas danças das divindades das águas, o corpo desenha e escreve os saberes sobre a água e sobre o humano nas águas.”

Olhe – e não deixe de ver –, assinala a voz-pensamento da profa Dra Leda Maria Martins:  

E ela nos indaga-e-indica, no fluxo de quem fala como pensa em voz alta: o que dança a dança de Iansã? O que escreve?

“Ela escreve o sujeito, aquele sujeito que tem que sobreviver à água da tempestade, dos raios, dos trovões, dos redemoinhos.

E a dança de Nanã, o que que ela escreve?

Ela escreve a água em estado de placenta, de criação, de princípio e fim, em estado de transformação, de devir, de fim e de recomeço: tudo tudo tudo simultaneamente.”

Então, a prof Leda Maria Martins faz ressaltar uma tese, uma de suas teses, que também está presente na estruturação fundacional do livro Afrografias da Memória: “esses repertórios são repertórios do corpo como lugar de construção do logos,  e da gnosis e da sofia, de sua transmissão, de suas traduções, de suas variações. E são repertórios narrativos, seja em termos de narrativas fundacionais, seja em termos de poéticas contemporâneas, seja em termos das próprias performances em ato”.  (Leda Maria Martins, 2019)

 

Ajudai-me, rainha do mar
Que manda na terra
Que manda no ar

 

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Os versos cantados por Leda, e lidos por mim, fazem parte do repertório de cânticos do Congado Mineiro e são tecnologias ancestrais para a permanência da vida. Vida chamando vida.

Assim eu entendo. Ouvindo/rememorando esses versos de travessia das águas na voz da profa Leda, eu retomo um pouco de ar, retomo a força, o sopro vivo da resistência negra, nosso fôlego e nosso legado ancestral, tudo isso que nos coloca  ao alcance do movimento incessante das águas?

Peço a vocês que prestem atenção nisto: há histórias que começam antes do começo e prosseguem depois do fim –  e, a uma só vez, são presença, e são memórias do passado e são memórias do futuro.

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Uma dessas histórias atravessadas por múltiplas camadas de tempo, e que por muito tempo não esteve nos livros, está na lembrança, no pensamento, na boca e na vida de toda a gente do Reinado Negro de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá.

Uma dessas histórias, uma história, longa e complexa, foi vivida, ouvida, foi contada, coreografada, cantada e ritmada, dançada, pensada e performada nas páginas de um livro, o Afrografias da Memória (1997).

Enquanto leio o livro da profa Dra Leda, pergunto-me em voz alta, desejando muito ouvir a resposta, desejando muito conseguir contribuir para a invenção de, ao menos, um encaminhamento de resposta possível para estas perguntas:

Um livro é também o mar, o movimento das águas? Que livro, uma vez escrito e publicado, conseguiria abrigar em suas páginas as forças irradiantes do manto de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos?  

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A pergunta sobre o Livro Preto é a minha pergunta de vida-inteira. Não só uma pergunta da vida inteira, mas uma pergunta de vida-inteira.

Tendo sabido, desde muito jovem, que um livro é imensidão; demorei muito para começar a saber que um livro pode entrar em relação com a ciência ancestral e a precisão de um ebó colocado na encruzilhada ou na porta de casa.

Tendo ficado fascinada por um longo tempo pelo projeto de modernidade presente no desenho gráfico-poético-filosófico do livro Um Lance de Dados, de Mallarmé; levei muito tempo até que a mim fosse possível um mergulho em processos criativos de fazimentos – de feitura – de livros, ao ritmo da dança-pensamento da palavra que é Àṣẹ.

Sim, às vezes, demora, leva tempo. Às vezes, parece não haver tempo que nos baste e nada nada se move, por anos. Tudo igual ao nada do desterro. Às vezes tudo muito lento, pouco a pouco, embora imediatamente.

A nossa história, a minha história, é a história da vida e de corpos negros em diáspora, em desmemória, empurrados muitas e muitas vezes para um círculo mortífero em torno das árvores do esquecimento que brotam nas ruas todos os dias.

Para dar nome a essas coisas todas que embaçam a visão, hegemonizam ideias e entorpecem sentidos, que param o movimento da vida nos corpos, o que, por vezes, por anos, pode nos acontecer, tal um cataclisma que parece interminável, chamemos a isso de dispositivos perenes da colonialidade, de racismo estrutural, de epistemicídios dos saberes e fazeres afrocentrados, de perda da imagem e das visualidades da vida negra, de esquecimento de quem somos e de quem estamos feitos.

Mas, a nossa memória e nossa desmemória, nosso corpo, nossa vida e nossa corporiedade, nosso saber e não-saber, não é um dispositivo apenas do eu-sou. Somos muitos e muitas num único corpo.

No logos performativo negro diaspórico, dois corpos podem ocupar um mesmo lugar no espaço-tempo espiralar. Essa a tecnologia da magia imanente (a materialidade mesma) do transe, nas palavras de Beatriz Nascimento (2018) : “a linguagem do transe é a linguagem da memória”. Essa a precisão cirúrgica, a fina lâmina da palavra-pensamento, aquela que abre caminhos, nas palavras de Leda Maria Martins (1997): “A cultura negra é uma cultura das encruzilhadas”.

A minha tarefa aqui hoje é a de compartilhar com vocês impressões de leitura, de dentro e de fora de um livro, suas ramificações nas materialidades de que é feita a vida e recontar um pouco a história matriz do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá.

Para isso, mexi e remexi em algumas das leituras que fiz – que venho fazendo e refazendo –,  acompanhada das letras, das imagens, das intensidades, das teses formuladas e de princípios poéticos que apreendo e aprendo ao ler o Afrografias da Memória.

Sinto-me atraída e guiada pela conceitualização performances da oralitura, um conceito formulado ao modo de uma escrita poética, que é também um fazer (re)existir, um método potente para a efetivação de projetos de decolonialidades e contracolonialiades de pensamentos e conhecimentos logocentrados/brancocentrados.

Com muita alegria, des-cubro que “Jatobá, de ya-ata-obá, é expressão tupi-guarani que designa a árvore frutífera “que tem dura casca ou superfície”  E que “contam os antigos que, nos tempos d’ antanho, os tropeiros e viajantes atravessavam as fazendas da região paravam para descansar e pousar debaixo de uma garbosa árvore de jatobá, nas cercanias da futura Colônia de Jatobá, onde se situa a Escola Estadual Cláudio Brandão, um dos muitos vales nas terras do jatobá. Da seiva da árvore se extraía um licor saboroso que os viajantes apreciavam. Por aquela região se multiplicavam os troncos dos jatobás, nomeando todo um vasto território e mesma a fazenda mais tarde ali recortada, a Fazenda de Jatobá” (MARTINS, 1997, p. 71)

No processo de aproximação ao livro, com a ajuda de Wilson de Avellar, tive a chance de assistir a A Coroação de uma Rainha, documentário-fabular de Arthur Omar, narrativa cênico-fílmica com acontecimentos performativos festivos e fundacionais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá.

No processo de aproximação ao livro, fez-se necessário que eu precisasse ser acolhida e escutada pela Iyalorixá Marlene de Nanã, do Terreiro Vintém de Prata, para amenizar um pouco as minhas imensas dores e inquietações de Yawô de Naná, para eu começar a molhar os pés e viver-pensar-narrar alguns dos diapositivos históricos e ancestrais de sobreimpressões, sincretismos, articulações, diferenciações, contiguidades, junções, fusões, misturas, paralelismos, justaposições, convergências, adaptações, confluências e transfluências, diálogos possíveis entre a imagem/narrativa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, as imagens/narrativas das orixás Oxum, Yemanjá, Naná, e a entidade/sistema divinatório Ifá.

Assim, diante da imensidão de trajetos de leituras possíveis do livro que me foi dado a ler, e para não sair demasiado da direção que me foi indicada, tentei organizar e condensar minha fala numa espécie de narrativa de memóras vivas de leitura.

Performar o conhecimento, afirma Grada Kilomba, é uma prática decolonial. Para performar o conhecimento devemos dizer de modo preciso onde as teorias nascem em nossos corpos e como as tornamos parte de nossas auto-biografias.

Sinto-me em travessia e atravessada pelo Afrografias, por uma experiência intensa de encontro com uma das matrizes principais das expressividades performativas dos povos negros diaspóricos, pensamento-dançante, uma dança que escreve, volejos do tempo espiralar, a matriz bantu-kongo é matriz viva e pulsante no Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá.

Como fazer um livro respirar? A essa pergunta-sopro de Laura Castro, em entrevista de lançamento de seu primeiro livro, Ficções do Ser: o entre lugar de bichas pretas nas escolas, Kauan de Almeida respondeu assim:

Quando a gente está nesse corpo preto, nesse corpo dissidente, feminino, a gente recebe uma herança a nossa revelia, né? E talvez a maneira mais digna de receber essa herança de pessoas negras que escreveram e escrevem, que lutaram para que isso fosse possível, é pegar essas palavras escritas, ler essas palavras, com a intensidade que eu possuo, nesse momento, e pensar desde esse lugar de fala que é o nosso. [...] Talvez o processo de respirar seja isso que a Leda Maria Martins vai trazer como o tempo espiralar, esse movimento espiralar, essas leituras e recriações que podem ser, então, feitas” (Kauan Almeida, 2021).

Pergunto-me: essas leituras feitas do tempo espiralar, de curvilíneas memórias (MARTINS, 1997), esgaçardas, são provisórias, incompletas. Mas não param de mover-se e de mover-nos como águas que, mesmo aparentemente paradas, estão sempre a mover-se para o mar?

As águas correm e as águas evaporam, formam rios e formam mares, são chuvas que caem na terra e são cursos de rios que correm e também pelos céus navegam, em forma de chuvas. Tenhamos olhos de ver  os rios de África transfluindo e  desaguando em rios no Brasil, como ensina Mestre Nego Bispo ... Nossas memórias narrativas sempre podem ser performandas, refeitas e desdobradas a cada vez, desterritorializadas e reterritorializadas, lá e aqui, na complexa encruzilhada da rota circum-Atlântica dos Orixás, Inquissis e Voduns.

O livro Afrografias da Memória me trouxe literalmente aqui hoje. Foi com ele que pude entrar no Estágio Pós-doutoral em Artes Cênicas do PPG-CEN, da UnB, com um projeto de pesquisa-criação intitulado ì l ẹ̀ k ù n: performances da oralitura, livros-folha nagô-vodum, com supervisão de Érico JosÉ. Projeto em curso no momento, em seu curso inicial.

O que posso lhes dizer neste momento? Posso dizer, sim, um livro é o mar. Que livro, uma vez escrito e publicado, conseguiria abrigar em suas páginas as forças irradiantes do manto azul de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos?

Salve Maria.

Itabuna, 11 de maio de 2021.

1 Referência: https://www.geledes.org.br/chacina-do-jacarezinho-a-gente-nao-merece-viver-em-um-cenario-de-guerra/
2 Referência: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993
3 Referência: Darcy Ribeiro e o livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil.
4 Referência: https://www.youtube.com/watch?v=6Kss5gRCvnY&t=2370s (Ateliê de Ideias – Encruzilhada referencial do dramaturgo diaspórico).
5 Referência: https://www.youtube.com/watch?v=iLYGbXewyxs (Decolonizando o conhecimento)
6 Referência: https://www.youtube.com/watch?v=8ix2PxOQZJI (Leituras contracoloniais, escritas contrahegemônicas)
7 Referência: https://piseagrama.org/somos-da-terra/ [Bispo dos Santos: “Trabalho com os conceitos de “confluência” e “transfluência”. Confluência foi um conceito muito fácil de elaborar porque foi só observar o movimento das águas pelos rios, pela terra. Transfluência demorou um pouco mais porque tive que observar o movimento das águas pelo céu. Para entender como um rio que está no Brasil conflui com um rio que está na África eu demorei muito tempo. E percebi que ele faz isso pela chuva, pelas nuvens. Pelos rios do céu. Então, se é possível que as águas doces que estão no Brasil cheguem à África pelo céu, também pelo céu a sabedoria do nosso povo pode chegar até nós no Brasil”.]

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Cynthia Cy Barra  lê-escreve-editora-fabula expressões do feminismo negro articuladas a poéticas ancestrais que emergem em artes/escritas contemporâneas. Águas. Versos. Palavras que atravessam o céu da boca. Fogo e Ar. Corpografias. Performances para atos de pensamento. É professora e pesquisadora na Universidade Federal do Sul da Bahia, coordenadora do grupo de pesquisa Lêtera Negra (UFSB/CNPq), pós-doutora em Artes Cênicas (PPGCEN/UNB). Yawô de Naná, no Ilé Ibirín Omi Àṣẹ Ayira (Terreiro Vintém de Prata), Salvador/BA. Torna-se poeta, sabendo musgos. Terra: “em meu Orì, canta a doce Senhora, Saluba, Naná”.

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