top of page
LEDA_trocas.jpg

Acendedora de sóis

De Dione Carlos para Leda Maria Martins

​São Paulo, Brasil, maio de 2020.


Sua Majestade Leda Maria Martins. Rainha da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Jatobá, dramaturga, encenadora, poeta, escritora e arte-educadora, professora doutora universitária, referência nacional e internacional, mulher cujo nome virou prêmio de artes cênicas, responsável pela implementação de dois cursos universitários, em duas das maiores universidades públicas do país. Pensadora que abriu caminho para os mestres populares, compartilharem saberes dentro da academia; sacerdotisa de letras vivas. Assim, você Leda é conhecida. Você que nunca me permitiu lhe chamar de senhora, pois, senhora mesmo é Nossa Senhora do Rosário.  Esta é você. 


Algumas pessoas, carregam múltiplos títulos mas, poucas conseguem superá-los. Geralmente, são superadas por eles. Você não. Seu conhecimento é sabedoria.  Vejo suas obras, como convocações poéticas. A cena em sombras e Afrografia da memória são duas obras primas que nos fazem refletir sobre a herança afro-diaspórica. A possibilidade de pensar dramaturgia, de criar conceitos a partir de experiências brasileiras, aprendendo com as manifestações populares que nunca, nunca se eximiram de abordar questões raramente representadas na cena a que estamos habituadas. Você diz o que faz. Sua imensidão permite que possamos ser grandes também. A sua fala cria lugares, onde podemos nos desenvolver sob uma grande exigência, mas sem medo.


O mesmo medo que paralisa não abre espaço para criação. O mesmo medo usado como método de submissão. Não. Não precisamos mais disso. Aliás, nunca precisamos. Não precisamos reproduzir relações coloniais para decidir quem manda e quem obedece. Isso deve ser definido pelo respeito conquistado. Não imposto. O tipo de respeito que você, Leda, desperta. Há um ditado que diz que as contas do meu rosário são balas de artilharia. Você é como um desses rosários, com contas de poesia, atravessando um mar imenso, kalunga grande; rainha filha de rainha, devota de santa resgata de fundo de rio. Erguida em altar de quem na igreja, de quem por muito tempo, nem pode entrar. São quatro horas da manhã na lembrança, a vizinhança toca campainha daquela família sem despertador, cuja filha precisa acordar, pois tem um vestibular para enfrentar. Ela será a primeira da família na universidade ingressar, cortando o silencio com a fina lâmina da palavra, pois aprendeu a ler para ensinar aos camaradas. 


Por isso, Nzambi sorri no meio do céu quando nos diz: O coração do ser-humano foi feito a imagem e à semelhança do tambor do universo. A memória vive no corpo que dança e canta, pinta e escreve na pele, seja samba ou congada. A cada canção entoada, a Rainha do mar, escuta e envia água doce de rio para limpar o sal, que escorre pelos nossos rostos. A tristeza vira alegria quando você bate os pés no chão e move o quadril no ritmo do tambor de cada coração presente. Você rainha, nos enxerga, escuta, abençoa, cura, nos amplia a percepção. Transforma a dor em sabedoria, sua vida é uma inspiração. Educadora que exige, mulher que acolhe a menina jovem curiosa em sua casa, para lhe ensinar a desviar das pedras do caminho. Conta histórias de tempos imemoriais; estamos em um ritual do Boi Âpis do Egito, estamos em um Bumba-Meu-Boi no Brasil ou entoando Ditirambos na Grécia. Enquanto você repete: Zum-zum-zum, tá no meio do mar.... Sua voz atravessa o tempo; sua doçura é leta, capazes de derrotar exércitos. Mulher de sangue banto, sangue Puri (de povo que já estava aqui, antes de todos os outros chegarem) sangue bento. Dissecando Anjo negro em análise profunda e encenando o mesmo texto como diretora potente; poeta de dias anônimos; está sempre cantando mesmo em silencio. Você diz que nos conhecemos há milênios e eu concordo, de vez em quando até me lembro como foi. Quando você começa uma frase dizendo: Meus queridos, eu sei que vem artilharia pesada, forte. Você passa batom como quem se prepara para um ritual, cruza as pernas, move os braços, escuta atenta dobra de tamanho enquanto fala. Você traz os ritos, os dramas, os rituais, as magias, de muitos lugares e repete sempre: nossas ancestrais eram pluriverssais, não podemos optar pela ignorância. Você abraça com o peito aberto, com o sorriso largo e chora caudalosamente e gargalha feito criança.  Posso ouvi-la contando histórias de matar de rir, de emocionar, você é tantas, muito mais que os títulos conhecidos, arduamente conquistados. Eles não dão conta da sua presença. Esta carta é uma declaração de amor de quem aprendeu a lhe amar em corpo, espirito, palavra escrita, falada, encenada, pensamento vivo.

 

Que a Rainha do mar nos ajude a atravessar novamente, que possamos nos reinventar novamente em ilhas prósperas até – formamos um novo continente. Que você possa ver flores, as sementes que ajudou a plantar. Você que levou a encruzilhada para dentro da academia. A mesma encruzilhada que é lugar sagrado do encontro, da ruptura, da fusão, do caos que gera ordem, onde boas perguntas são feitas e dogma algum encontra passagem. Que o tempo da ancestralidade nos liberte de um passado que não passe, de um presente que não acontece e de um futuro que não chega. Que toda dramaturgia seja uma oferenda para tratar o passado, alimentar o presente e apontar futuros melhores. Que por muito tempo, possamos dizer, muito obrigada, Leda Maria Martins. Por tudo o que você representa, fez, faz e ainda fará. Muito obrigada por existir, sua presença nos obriga a ser mais e melhor. Sigamos e que bons ventos nos guie. 

​

============


Dione Carlos é dramaturga, roteirista, atriz e curadora. Escreveu dezenas de peças encenadas no Brasil e no exterior, por grupos como Cia Capulanas de Arte Negra, Cia Livre, Coletivo Legítima Defesa e Companhia de Teatro Heliópolis. Selecionada para participar do Black Women Theatre Makers realizada pela PlayCo, de Nova Iorque, EUA. Representou o Brasil no Dia Internacional da Língua Portuguesa, na Grécia. Criou roteiros para diversos canais e atualmente trabalha na Rede Globo. Roteirista responsável pelo documentário Elza Infinita, ganhador do prêmio de melhor documentário no Festival Internacional de Nova Iorque. Foi orientadora artística da Escola Livre de Teatro de Santo André no Núcleo de Dramaturgia. Ministra oficinas de dramaturgia pelo país. Agraciada com os Prêmios Shell e APCA 2022 na categoria Dramaturgia.

bottom of page