
Sobre deuses e rainhas: a filosofia de Leda Maria Martins, por Eduardo Oliveira
O carioca de cidadania mineira Milton Nascimento, imortalizado cidadão do mundo, numa de suas canções mais contundentes, “Promessas do Sol”¹, com sua voz afro-pindorâmica², faz a pergunta mais urgente: “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”. Elis Regina disse um dia que, se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton. Sua voz maviosa e telúrica, ao som de flautas, piano e violão, ecoa a pungente indagação para o nosso tempo. Não é a pergunta para um deus responder, mas a indignação divina diante de um acontecimento trágico: a violência sistemática contra os povos africanos no continente e na diáspora, e a violência igualmente perversa contra os povos originários da Ameríndia.
O rapto de milhões de africanos de seus territórios de origem, o genocídio que desgraçou sua dinâmica cultural, a escravidão que lhes roubou sua história de liberdade e criação; a destruição cumulativa e cruel das instituições políticas, das línguas e seus falares, das linguagens e seus fazeres, dos corpos e seus saberes, da espiritualidade e sua profusão de deuses e deusas, a povoar de sentido o mundo, agora sem sentido pela devastação a que foram submetidos por povos pretensamente superiores, com lei, fé e poder, a oferecer luz para os povos indígenas, do lado de lá e de cá do Atlântico, que viviam na escuridão. Que trágica ironia: em nome da Justiça, da religião e do Estado, julgavam que viriam “salvar os povos primitivos”, atados que estavam aos grilhões da ignorância e da selvageria!
Em nome de Deus, mataram mulheres, anciãos e crianças na tresloucada aventura da “civilização”. Em nome da Justiça, dizimaram não apenas um povo, mas gerações e gerações de culturas sapienciais, que criaram a matemática, a música, a física, a astrofísica, a filosofia, o teatro, a dança, o canto, o deus tambor e sua comunicação ancestral… Foi em nome do bem que produziram o maior mal na face da Terra. Não falo somente dos corpos mutilados pelo trabalho escravo e pela guerra colonial, não me refiro apenas à maior tristeza do mundo que é ser alijado, a fórceps, de seu território de alacridade; de ser arrancado, com atroz violência, do convívio dinâmico e respeitoso de seus antepassados, de seus ancestrais. A violência colonial foi também um epistemicídio. Mais! Um semioticídio! Tentou aniquilar saberes e práticas vividos e difundidos há milênios por etnias que demoraram muito tempo para falar a língua dos corpos, da natureza, dos animais, dos minerais e dos espíritos. Culturas que produziram, por séculos a fio, signos e símbolos que povoam o imaginário da humanidade. A fundação da humanidade, agora separada de sua sabedoria (signos e práticas, símbolos e trocas, saberes, sabores, linguagens…), foi ferida “à faca sem terminar, me deixando vivo, sem sangue, apodrecer”. O sangue escorre do punhal colonial há mais de 500 anos. A metralhadora do sexismo, do patriarcalismo, do etarismo, da LGBTfobia, do classismo segue fazendo suas vítimas. Um mar de sangue banha nossos pés. “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”
A carioca Leda Maria Martins, sagrada Rainha de Nossa Senhora das Mercês do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, em Belo Horizonte, igualmente cidadã do mundo, não nega a tragédia, pois conhece muito bem o sortilégio da cor e o racismo que impera na outrora Ilha de Santa Cruz, mas canta, toca e dança³, na altura de sua majestade, sobre os despojos do colonialismo.
Sá Rainha Leda Maria Martins nos faz lembrar, como uma feiticeira sabe fazer, que não perdemos nem a guerra nem a memória. Todas as vezes que testemunhei Sá Rainha em público, popular e/ou acadêmico, eu a vi cantando as ladainhas do Reinado, marcando com os pés e as mãos o ritmo compassado e sedutor dos tambores do Jatobá, deixando seu corpo bailarino dançar ao sabor da música e da história. Acompanhei seus escritos seminais, desde A cena em sombras, passando por Afrografias da memória, até o inspiradíssimo Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela⁴. Leda não apenas acompanha a história da educação das relações étnico-raciais no Brasil, e a história e cultura africana e afrobrasileira, mas também contribui, com sua pena precisa e encantada, para os estudos sobre populações africanas no Brasil e na diáspora. Leda Maria Martins finca os fundamentos de uma guinada epistemológica muito antes de os decoloniais estarem na moda. Ela inaugura um campo de saber muito antes de as leis 10.639 e 11.645 estarem em voga. Sá Rainha é, incontornavelmente, um marco na produção de conhecimento sobre e na cultura africana e brasileira.
Como poucos, e raríssima entre seus contemporâneos, nossa doutora em letras soube aliar a maior pujança epistemológica com o maior alcance estético. Não se contentou com a análise dos fragmentos de cultura africana recriados e ressignificados no Brasil, pois, de maneira íntegra e integral, captou a ancestralidade africana em seu devir de cultura e nos fortaleceu com a produção de conceitos que se tornaram régua e compasso para compreender – e vivenciar – as culturas afro-brasileiras. Performance, encruzilhada, oralitura, afrografia, tempo espiralar, corpo-tela, tempo-bailarina são alguns dos mais lindos e potentes conceitos que constituem o campo de saber das africanidades no território afro-pindorâmico que habitamos. Ela nos fez habitar nosso território ancestral sem fragmentar o que foi mutilado pela indústria colonial, restituindo, pelo saber e pela sensibilidade, a dignidade – que jamais foi perdida, mas talvez tenha sido esquecida – de nosso povo, seus fazeres e saberes, vivos em cada corpo de um capoeira, um jongueiro, um brincante de maracatu, cavalo-marinho, samba de roda. Tudo vivo e atualizado no corpo e na verve de Sá Rainha.
Que tragédia é essa que nos faz surdos às perguntas dos deuses e insensíveis ante a majestade das rainhas? Leda Maria Martins é, sem dúvida, uma de nossas referências mais agudas da filosofia brasileira! Sim, a Rainha do Reinado do Jatobá, a doutora em letras e literatura comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a ensaísta de sucesso, a escritora de livros fulcrais no cenário brasileiro (diria mesmo no cenário americano), a exímia pensadora e criadora do teatro nacional, a inspiradora do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras, a reconhecida pesquisadora em terras norte-americanas e europeias, a responsável por inaugurar, digamos assim, os saberes e fazeres da performance entre nós, a criadora de categorias do pensamento que se tornaram a base para o conhecimento afrorreferenciado, como a encruzilhada, a ancestralidade, a oralitura, a afrografia, o tempo espiralar, se converte, quiçá, ao lado de Helena Theodoro e Sueli Carneiro (apenas para citar algumas mulheres-ícones da produção do conhecimento no Brasil), numa das maiores expressões da filosofia brasileira do nosso tempo.
Aliando arte e história, antropologia e literatura, letras e música, música e canto, canto e epistemologia, epistemologia e estética, Leda, no ofício de sua maestria, desvendou não apenas um mundo de possibilidades de pensar a cultura e a memória afro-brasileiras, mas também o reconhecimento de um mundo ancestral sempre e sempre diante de nossos olhos, mas cujo deslumbre de culturas, saberes e fazeres, por efeito do racismo, não conseguimos ver – aliás, da mesma maneira, o Brasil não conseguiu ver o brilho muito bem definido de Sá Rainha, que durante mais de duas décadas viveu recôndita, apesar de sua produção constante, apesar de sua presença contundente, apesar de seu carisma irresistível, apesar de sua luta inexorável, e por ela se tornou imprescindível e, ainda assim, vítima das mazelas do racismo e do sexismo que nos assolam. Quiçá com esta exposição do Itaú Cultural sobre Leda Maria Martins possamos voltar a escutar os deuses e reverenciar as rainhas.
* Eduardo Oliveira é filósofo africano-brasileiro, poeta, ensaísta e babalawô.
Notas
1 – “Promessas do Sol”, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, foi lançada no álbum Geraes, em 1976.
2 – “Afro-Pindorama” é como nosso ancestral mais recente, Nego Bispo, denomina o território brasileiro.
3 – Tocar-cantar-dançar é uma das proposições do congolês Bunseki Fu-Kiau, uma das referências mais importantes para Leda.
4 – Leda é autora de outros tantos livros e muitos artigos acadêmicos, bem como ensaios e textos dramatúrgicos, numa diversidade impressionante de temas, experiências e conceitos.