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Entrevista com Leda Martins, por Diana Taylor

Diana Taylor: Então, Leda Martins, você poderia se apresentar, por favor?

Leda Martins: Leda Martins, ou Leda Maria Martins. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil.

Diana: Leda, em português. Desculpa não poder perguntar em português, mas… Você poderia nos dar uma ideia do desenvolvimento dos estudos da performance no Brasil, ou se eles têm se desenvolvido?

Leda: Diana, no Brasil, acho que a gente pode falar de duas linhagens de estudos da performance. Uma via Paul Zumthor. Então, por exemplo, na minha universidade, já desde os anos 80, final dos 80, começo dos 90, há pessoas que já trabalhavam com os estudos da performance via Zumthor. As teorias do Paul Zumthor. Traduzindo, utilizando... Em São Paulo, o Renato Cohen introduz os estudos da performance já via Schechner. Ele foi aluno do Schechner em Nova York. Então, o Renato Cohen em São Paulo, o approach dele é mais via os estudos da performance dos Estados Unidos. No Rio, o Zeca Ligiéro, via também... pouco mais via o approach dos estudos da performance, particularmente de Nova York. No meu caso em particular, eu trabalhei desde sempre com as duas linhagens. Tanto com os estudos do Zumthor quanto com os estudos que se fazem no departamento de Nova York, no trabalho que a gente tem feito com você há alguns anos, mas também na Northwestern [University], onde a professora Sandra Richards pertencia, também, ao Departamento de Performance de lá. Então, nós tínhamos um intercâmbio muito bom nesse sentido.

“Os estudos da performance nos auxiliam a estudar, por exemplo, variadas práticas rituais. No estudo das quais a performance nos oferece um certo viés metodológico que é fundamental.”

No Brasil, eu diria que nós não temos departamentos, como vocês têm, particularmente dedicados aos estudos da performance. Nós temos intelectuais e artistas em variados tipos de departamentos que trabalham com performance. Via, ou departamentos de teatro, ou departamentos de literatura, na antropologia. Por exemplo, em Belo Horizonte, havia um núcleo que trabalhava com "performing arts" e com exposições. Ou seja, todas essas infusões sobre os estudos da performance... Isso eu estou falando mais, você está vendo, do Sudeste. Eu estava falando com a Anabelle, o Brasil é um continente. Eu não creio que eu dê conta de falar de todos os estudos da performance em todo o Brasil. Mais com aqueles que eu tenho mais trânsito, que seria mais o Nordeste... E na Bahia, que é muito interessante. Porque, na Bahia, há uma aproximação. O forte na Bahia é a etnocenologia, mas há uma grande aproximação entre nós que trabalhamos na UFMG com os cursos de teatro da Bahia, partindo dos trabalhos do Armindo Bião. Então há uma interlocução com a etnocenologia muito interessante em estudos da performance, sem aquelas querelas que há, por exemplo, na Europa, talvez nos Estados Unidos, entre as duas áreas de conhecimento. E isso é muito interessante no Brasil, há uma aproximação entre essas duas áreas de conhecimento. Então eu diria que nós não temos, talvez, como departamento não vamos encontrar — acho que eu posso falar com segurança — no Brasil um departamento de estudos da performance. Nós vamos encontrar, em várias áreas do conhecimento, docentes, intelectuais, e a prática — muitos artistas nomeiam a sua prática como performance — ou então a curiosidade sobre a performance. Não sei se te respondi.

Diana: Sim, sim, sim. E os estudos da performance como uma metodologia? Por exemplo, o teu trabalho sobre oralidades, ou outro tipo de trabalho que tenha a ver com o corpo, com todo o conhecimento corporificado. Tudo isso para mim é performance, não? Então há muitos estudos desses que não caem, digamos, oficialmente, estritamente, dentro do campo já conhecido. Mas eu creio que há muita gente que faz um trabalho muito importante que, eu creio, no sentido mais amplo é estudos da performance.
 

Leda: Eu acho que o significante, talvez, de maior valia, no Brasil, de maior circulação, talvez não seja performance, mas corporalidade.

Diana: Sim.

Leda: Então nós temos uma diversidade muito grande, e também várias áreas do conhecimento. Da psicanálise ao teatro, a antropologia, a música, etc., até a neurosciência. Essa ligação de neurosciência com corporalidade. Então, eu acho que corporalidade é um significante com mais trânsito no Brasil. Mas eu diria que, na última década, performance tem despertado como área de conhecimento, como episteme. Mesmo porque eu distingo da prática, que nós chamamos a prática da performance, e aí você tem uma variedade muito grande de artistas que se dizem performer, ou revelam curiosidade sobre. Agora, como uma episteme, na universidade a gente também já pode localizar na UFMG, Rio de Janeiro, em São Paulo, por exemplo, performance como os estudos da performance. Aí como teoria, como episteme, e particularmente como metodologia. O que eu tenho utilizado muito. Mesmo antes de trabalhar com a Sandra Richards na Northwestern e com você lá nos Estados Unidos, eu já trabalhava — aquilo que eu digo, era o meu cantinho no Brasil — tanto com a palavra "performance", e buscando particularmente uma metodologia.

E isso que eu acho interessante, quer dizer, o encontro com o Departamento de Performance da New York University, e em particular com você, acho que se dá pela aproximação de alguma coisa que eu já fazia, também. E foi para mim muito, foi fascinante saber, por exemplo, toda aquela articulação, e interlocução que se faz, e que você faz em particular, entre performance, saber e memória. Eu usava já, desde os anos 80, tanto o termo "performance", e à partir dos 90, o "oralitura", mas também tentando mapeá-lo no âmbito dos estudos da performance. E como eu, eu posso falar com segurança, há vários intelectuais e artistas também. Artistas-intelectuais — essa divisão é meio estranha, não existe na verdade — que utilizam a performance como prática e também como um olhar sobre a prática. No meu caso em particular, essa aliança que estaria dentro dos estudos da performance, da oralidade, e nela da corporalidade, e que eu denominei "oralitura", e em particular, que eu acho também fascinante no Brasil, acho que encanta muito várias áreas do conhecimento no Brasil, é que os estudos da performance nos auxiliam a estudar, por exemplo, variadas práticas rituais. No estudo das quais, a performance nos oferece um certo viés metodológico que é fundamental. Tem que olhar para você, em vez de olhar para câmera. Eu sempre falo com gente, está vendo, é corpo.

Diana: Obrigada, Leda.

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Diana Taylor é professora nos departamentos de Estudos da Performance e Espanhol & Português na NYU. Originalmente mexicana, foi educada no México, na França e nos Estados Unidos. Ela é autora dos premiados Theatre of Crisis: Drama and Politics in Latin America (1991) e Disappearing Acts: Spectacles of Gender and Nationalism in Argentina's 'Dirty War', publicado pela Duke U.P., em 1997. O livro O Arquivo e o Repertório: Performance e memória cultural nas Américas (Duke U.P., 2003) é recipiente do ATHE Research Award em Prática Teatral e Pedagogia e do prêmio de melhor livro da Modern Language Association Katherine Singer Kovacs, na categoria Latin American and Spanish Literatures and Culture (2004). O livro foi traduzido para português por Eliana Lourenço de Lima Reis, em Belo Horizonte, e publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais em 2012. Também foi traduzido para espanhol por Anabelle Contreras, e publicado pela Ediciones Universidad Alberto Hurtado, em Santiago do Chile, em 2015. PERFORMANCE (Buenos Aires: Asuntos Impresos, 2012) reapareceu com uma versão revisada em inglês pela  Duke University Press em 2016. Acciones de memoria: Performance, historia, y trauma, foi publicado no Peru pelo Fondo Editorial de la Asamblea Nacional de Rectores (2012). Seu novo livro, ¡Presente! The Politics of Presence será lançado pela Duke U.P., e em espanhol pela Ediciones Universidad Alberto Hurtado, em Santiago do Chile. Ela é a editora e co-editora de uma dezena de livros, incluindo diversos livros digitais como O que são os Estudos da Performance? (co-editado com Marcos Steuernagle) e Dancing with the Zapatistas (Duke U.P. 2016). Taylor recebeu diversas bolsas, incluindo a Guggenheim Fellowship em 2005 e a ACLS Digital Innovation Fellowship em 2013-14. Em 2017, ela serviu como presidente da Modern Language Association (MLA). Em 2018, Taylor entrou para a Academy of Arts and Sciences. Desde 1998, Taylor fundou e dirige o  Instituto Hemisférico de Performance e Política, uma rede de acadêmicos, artistas e ativistas que trabalham por justiça social através das Américas.

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