
O Momento Leda – um breve esquema, por José Fernando Peixoto de Azevedo
Essas notas celebram o convívio e as trocas com Leda Maria Martins, dando notícias de uma conversa com seus textos – uma conversa que segue. Cenas de homenagem dão a ver o quanto uma trajetória tem sido capaz de atravessar e ensejar outras, quando, de uma pessoa, vista pelos olhos dos outros, persistem os olhos próprios, ensinando-nos a ver o que olhamos com o mesmo assombro de quem descobre e inventa no mundo, com o mundo, sobre o mundo, apesar do mundo, às vezes contra. É possível ler os textos de Leda como quem se depara com um mapa. Não há dúvida de que Leda Maria Martins é figura singular entre aquelas decisivas de uma certa tradição radical negra (1), sem que desta faça bandeira, movendo, contudo, linhas que organizam, em muito, nosso jeito de pensar. Sabemos, essa tradição radical negra forjou-se a contrapelo de uma certa tradição crítica brasileira que foi o desdobramento de uma perspectiva de classe dominante, e que insistiu, por décadas, em interrogar sobre os sentidos de uma formação (2) social que se revelava não apenas incompleta, mas impossível nos termos de uma integração sempre adiada, até que fosse finalmente cancelada pelos desarranjos da História. O trabalho de Leda, sem tematizar ou polemizar diretamente o tópico, não ignora essa linhagem, vai noutra direção – basta ver o modo como elabora a memória em seu livro Afrografias da memória: o Reinado do Rosário no Jatobá (3). Quem está acostumado a ler e ouvir Leda sabe que, entre a voz e a escrita, uma fala se elabora com a precisão de quem compreendeu que o trabalho intelectual é sempre o resultado de uma conversa em tempos diversos, até que a palavra se torne ela mesma portadora.
À guisa de esquema: no Brasil, a ideia modernista de antropofagia está na base de uma autocompreensão que determinou aspectos incontornáveis das artes e do pensamento entre nós (4). Ainda hoje dá a pensar a aposta numa maneira brasileira de redimensionar a herança colonial, fazendo “nosso” tudo aquilo que nos chega e marca, desde as formas de convívio até as formas de pensar, produzindo, como numa espécie de apropriação produtiva, uma outra coisa que tende, quase sempre, a revelar limites e impasses contidos nos próprios materiais apropriados, dando a ver o que há neles de ideologia, por exemplo (5). Antes da pegada modernista, o escritor negro Machado de Assis foi o mestre nesse tipo de operação, como mostraram Roberto Schwarz e Eduardo de Assis Duarte (6). Não é difícil perceber o quanto essa ideia, chave em quase tudo da vida das ideias por aqui, guarda de um senso das diferenças, numa conta que nunca fecha. Durante muito tempo o Brasil foi o país do futuro, e o futuro parecia ser um lugar onde chegaríamos, realizando promessas que talvez nos aproximassem de um modelo. O fato é que essa espacialização, que faz do futuro um lugar, confirma o Brasil como o país do futuro, não porque um dia chegaremos lá, mas porque o mundo está chegando aqui, onde sempre estivemos (7). A viravolta crítica não escapa ao impasse e, aqui, o “Momento Leda”.
Em seus textos, Leda propõe uma outra maneira de aportar no chão social e cultural, riscando as linhas de uma outra forma de perceber/compreender o tempo. Com ela, evadimos do paradigma da canibalização para o paradigma da encruzilhada. A sua perspectiva é transfiguradora; sem descartar, ajusta. Com isso, a experiência negra ganha dimensão própria, convertendo em princípio epistemológico aspectos de modos de ser e de viver que chegaram até nós pelo movimento dispersivo da diáspora. Se na encruzilhada reina Èsù, aquele que também de tudo se nutre e a tudo regurgita, reinventando o mundo, é na encruzilhada que se instaura um outro modo de compreender a temporalidade das coisas, o acontecimento. A dimensão espiralar dessa temporalidade escapa à flecha do tempo linear, mas também ao mero círculo e à repetição. Na encruzilhada temos “a possibilidade de interpretação dos trânsitos sistêmico e epistêmico que emergem dos processos inter e transculturais, nos quais se confrontam e dialogam, nem sempre amistosamente, registro, concepções e sistemas simbólicos diferenciados e diversos” (8).
A encruzilhada passa a ser um modo de instauração, uma forma de produzir relações. A experiência e elaboração desse convívio de temporalidades permitem uma outra forma de compreender o fato colonial, seus destinos e a relação entre as mais diversas matrizes culturais que, por assim dizer, nos (in)formam.
A encruzilhada, locus tangencial, é aqui assinalada como instância simbólica e metonímica, da qual se processam vias diversas de elaborações discursivas, motivadas pelos próprios discursos que a coabitam. Da esfera do rito e, portanto, da performance, é lugar radial de centramento e descentramento, intersecções e desvios, textos e traduções, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação. Operadora de linguagens e de discursos, a encruzilhada, como lugar terceiro, é geratriz de produção sígnica diversificada e, portanto, de sentidos. Nessa via de elaboração, as noções de sujeito híbrido, mestiço e liminar, articuladas pela crítica pós-colonial, podem ser pensadas como indicativas dos efeitos de processos e cruzamentos discursivos diversos, intertextuais e interculturais. Esses modos de constituição e reconstituição simbólicos advêm da encruzilhada, o operador sígnico que possibilita sua emergência, contemplando-os com os desdobramentos possíveis, mas que neles não se esgota. Nessa concepção de encruzilhada discursiva destaca-se, ainda, sua natureza móvel e deslizante, no movimento da cultura e dos saberes ali instituídos. (9)
Por um momento, volto às anotações de Antonio Candido, a grande figura daquela tradição crítica brasileira, que, à véspera da morte, fazendo um balanço da vida e do trabalho intelectual, olha para os vínculos de classe que determinaram sua perspectiva e esboça a elaboração dos seus limites, na “sinistra teia de interesses que está na base do Brasil, via escravidão”:
Nunca chegamos avaliar corretamente que no Brasil o alvo de luta social é antes de mais nada o negro, o grande excluído ainda hoje, esquecendo que no Brasil o trabalhador foi durante séculos o escravo, e que a solução obnubilada foi, depois da “Abolição”, descarta-lo em vez de incorporá-lo. Este é o drama social e político fundamental que deveria ter sido a mola de um socialismo ajustado à nossa realidade. Nesse sentido, a verdade é que fracassamos. Não soubemos ver o que olhávamos. E era o problema básico para uma política de tendência igualitária. (10)
“Olha para você ver” (11): o trabalho de Leda, aprofundando aspectos da tradição radical negra, entra na conversa, dando a ela um outro rumo. Será no teatro que, estética e politicamente, encontraremos uma outra configuração da Blackness, a negrura, nos termos de Leda, que citando Henry Louis Gates Jr., a compreende não como “objeto material, um absoluto, ou um evento, mas um tropo; ela não tem uma ‘essência’ como tal, mas é antes definida pela rede de relações” (12). É ainda numa perspectiva formativa que a tese defendida em 1991 e publicada em 1995, o livro já clássico A cena em sombras, percebe o empenho singular de Abdias Nascimento e seu Teatro Experimental do Negro, fundado em 1944, como momento de um processo em que, como diria Décio de Almeida Prado, em 1964, o teatro permanecia “ainda a work in progress” (13). Na chave comparativa estabelecida por Leda:
“nos Estados Unidos, esse trajeto produz uma continuidade, que não se confunde com linearidade, mas que denota uma insistência efetiva e um alastramento territorial; no Brasil, ao contrário, o Teatro Negro produz um sulcou sulcos que parecem esgotar-se em sua autonomia” (14)
Com efeito, o Teatro Negro estaria inscrito no processo de modernização da cena brasileira, momento decisivo daquilo se nomeou teatro brasileiro moderno (15), participando de sua incompletude; isso, produzindo uma clivagem e esboçando um horizonte de produção que ganham múltiplas variações na cena contemporânea – o que nos traz à pergunta sobre o sentido mesmo daquela modernização. Na coletânea organizada por Abdias, em 1961, Dramas para negros, prólogo para brancos, na diversidade dos aspectos da experiência negra elaborados pelas tentativas dramatúrgicas, o esforço de síntese: “Um gesto de busca de renovação que se inseria nos movimentos de transformação cênico-dramática e de modernização do teatro brasileiro, muito intensos na época”. (16) O teatro então se configura como plataforma para compreensão da negrura e, enquanto tal, campo privilegiado para interrogação sobre o estágio da sociedade na qual emerge. De 1961 pra cá, mais intensamente nos últimos trinta anos, longe daquela perspectiva de uma formação social integradora, inclusão tornou-se bordão publicitário, desmanchando-se (17) no bojo de um processo de desintegração que se dá a ver, em sua violência total, nas esferas de combate e resistência encarnadas pela vida negra. Olhando para essa experiência, Leda desdobra seu trabalho numa estética das performances do tempo espiralar, inscrevendo as energias poéticas na encruzilhada que é o tempo presente. Aqui encarna o corpo-tela, signo de uma sensorialidade abarcante e embates vivos, de passado e ancestralidade, que confere, na carne negra, a afirmação de uma possibilidade ética e política em permanente reinvenção. Esse o momento Leda: instante em que se instaura uma interrogação sobre o que seja o teatro negro – hoje. E, a partir dessa cena, aberturas para pensarmos o que seja ainda a encruzilhada Brasil.
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(1) Cf. o uso que Fred Moten faz da expressão, no contexto estadunidense, em seu Na quebra: a estética da tradição radical preta, São Paulo: Crocodilo/n-1 edições, 2023.
(2) Lembremos o modo como a ideia de formação aparece em títulos como Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr; Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado; Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, de Antonio Candido – entre outros. De Paulo Arantes, Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira: dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. Roberto Schwarz, “Os sete fôlegos de um livro”, in Sequências brasileiras: ensaios, São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
(3) Leda Maria Martins, Afrografias da memória: o Reinado do Rosário no Jatobá, São Paulo: Perspectiva/Belo Horizonte: Maza Edições, 2021
(4) Oswald de Andrade “Manifesto Antropófago”, in A utopia antropofágica, São Paulo: Globo, 2011. Para o debate sugerido, cf. ainda, de Roberto Schwarz, “Nacional por subtração” in Que horas são?, São Paulo: Companhia das Letras, 1987; Suely Rolnik, Antropofagia Zumbi, São Paulo: n-1 edições, 2021; Zita Nunes, Democracia canibal, São Paulo: Fósforo, 2024.
(5) Cf. a discussão elaborada por Roberto Schwarz em “As ideias fora do lugar”, in Ao vencedor as batatas, São Paulo: Duas Cidades, 1992.
(6) Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis, São Paulo: Duas Cidades, 1990; também de Roberto Schwarz o já referido Ao vencedor as batatas. De Eduardo de Assis Duarte, Machado de Assis afrodescendente: antologia e crítica, Rio de Janeiro: Malê, 2020.
(7) Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo”, in Zero à esquerda, São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.
(8) Leda Maria Martins, op. cit., p. 34. Cf. também de Leda Maria Martins, Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo tela, Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
(9) Leda Maria Martins, Afrografias da memória, op. cit., pp. 34-35.
(10) Cf. o filme de Eduardo Escorel, Antonio Candido, anotações Finais, 2024.
(11) Modo atento e carinhoso que Leda tem de instaurar uma conversa.
(12) Cf. Apud Leda Maria Martins, A cena em sombras, São Paulo: perspectiva: 1995, p. 66.
(13) PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso: crítica teatral (1955-1964). São Paulo: Martins, 1964, p. 7.
(14) Leda Maria Martins, A cena em sombras, p. 77.
(15) Azevedo, José Fernando Peixoto de, “Transições canceladas: teatro e experiência no Brasil (notas para um programa de trabalho)”, Revista Sala Preta, São Paulo: ECA/USP, v. 16, n. 2, 2016.
(16) Leda Maria Martins, “Um precioso legado: notas sobre a primeira antologia de teatro negro no Brasil”, in Abdias Nascimento (organização), Dramas para negros, prólogo para brancos, São Paulo: Temporal, 2024, p. 28.
(17) Francisco de Oliveira, “O ornitorrinco”, in Crítica à razão dualista/O ornitorrinco, São Paulo: Boitempo, 2003.