
Resenha de Performances do tempo espiralar, por Leonardo Soares
O romance A varanda do Frangipani, de Mia Couto, apresenta o relato de um narrador defunto, cadáver que não teve o devido funeral, sendo esquecido junto com o nome, não alcançando, portanto, a dimensão de antepassado lembrado. Ouçamos suas palavras, que abrem o romance, escrito em 1996:
Sou o morto. Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito. Ermelindo Mucanga... Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento... Como não me apropriaram funeral fiquei em estado de xipoco, essas almas que vagueiam de paradeiro em desparadeiro. Sem ter sido cerimoniado acabei um morto desencontrado da sua morte. Não ascenderei nunca ao estado de xicuembo, que são os defuntos definitivos, com direito a serem chamados e amados pelos vivos. Sou desses mortos a quem cortaram o cordão desumbilical. Faço parte daqueles que não são lembrandos. (COUTO, 2007, p. 9-10)
Ao final de seu Peformances do tempo espiralar, encerrando o percurso pelas sete Composições, urdidas em ritornelos, que compõem o livro, no capítulo/condensação Ntunga, Leda Maria Martins evoca a figura do xipoco – via Mia Couto – articulando-a à concepção de ancestralidade que move a sua pesquisa, canal de força vital que entrelaça em um mesmo circuito fenomenológico, à maneira de um novelo, “as divindades, a natureza cósmica, a fauna, a flora, os elementos físicos, os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer, concebidos como anelos de uma complementaridade necessária, em contínuo processo de transformação e de devir.” (MARTINS, 2021b, p.203). O ancestre – experiência acumulada de conhecimento que contorna toda a existência em seus entornos – deve ser lembrado e celebrado como fonte de conhecimento e rejuvenescimento. A personagem do romance de Mia Couto, para poder ser relembrada, reclamada e recordada, precisará remorrer (COUTO, 2007, p. 13). E como bem (re)lembra Leda Maria Martins:
O prefixo re nos remete à necessidade de uma volta, de um fazer-se de novo, de uma retrospecção, de uma retroação, mas também nos aponta para uma repetição a vir, produzir-se à frente, como uma memória do futuro. No prefixo re, de remorrer, anelam-se o retornar, tornar-se e volver no passado, assim como reatar, reinstaurar o porvir. (2021b, p. 205)
A figura do xipoco e sua tarefa de remorrer me parece imagem justa, “célula-síntese” desse tempo curvo, recorrente e anelado, um tempo que não se fecha nos limites de uma linearidade progressiva, homogênea e vazia, em direção a um fim, tampouco arremeda em fechados círculos centrípetos de repetição do mesmo. Tal concepção cósmica e filosófica enovela, em um único circuito de significância, o tempo, o corpo-imagem, a ancestralidade e a morte.
Publicado em 2021 pela editora Cobogó, Performances do tempo espiralar; poéticas do corpo-tela é o segundo livro da coleção Encruzilhada, coordenada pelo professor José Fernando Peixoto de Azevedo.1 Por sua vez, o pensamento de Leda Maria Martins é quem norteia o espírito da coleção, que toma a imagem da encruzilhada como portal de acesso e compreensão das experiências diaspóricas, na emergência de espacialidades e temporalidades engendradas na afluência de corpos e de tradições.
A ancestralidade, ao mesmo tempo princípio civilizador africano e canal da força vital – “dínamo e repositório da energia movente, a cinesia originária sagrada, constantemente em processo de expansão e de catalisação” (MARTINS, 20221b, p. 60) – não é uma vivência fundada no passado, Leda Maria Martins nos (re)lembra em várias passagens do seu livro. A evocação à sua mãe Alzira Germana Martins, alumbramento e voz que alumia, neste e em outros livros da pesquisadora, presenta metonicamente esse diálogo potencialmente transformador com essa força vital. Nos breves Ritornelos, à guisa de introdução, Leda Maria Martins adverte que o livro revisita e expande reflexões sobre o tempo como espirais, elaboradas por ela desde os anos 90 do século XX. Por outro lado, acredito que se possa recuar um pouco mais, exatamente a 1981, quando a pesquisadora defendeu a dissertação, para obter o grau de Master of Arts, pela Universidade de Indiana, Estados Unidos, a respeito da dramaturgia de Qorpo-Santo (1829-1883). Nesse primeiro investimento de fôlego, Leda Maria Martins é atraída pelo caráter de modernidade e de ruptura dos textos suis generis do esquecido dramaturgo do século XIX, desvelando os jogos cênicos, o desconcerto das soluções de linguagem e, principalmente, o potencial de visagem que esses textos projetam.2 Ainda nos Estados Unidos, Leda defronta-se com o livro Drama para negros e prólogos para brancos, antologia do teatro negro brasileiro, organizada por Abdias Nascimento e publicada no Rio de Janeiro, em 1961, reunindo textos encenados pelo Teatro Experimental do Negro (TEN). Esse encontro será o início de sua pesquisa de doutorado que investigará comparativamente o palco do teatro negro no Brasil e nos Estados Unidos. Nesse estudo – A cena em sombras – já se começa a delinear a noção de encruzilhada como potente operador conceitual, assim como o exercício coreográfico do olhar da pesquisadora para o Teatro Negro; visada que não se quer monolítica e triunfante, “cuja assimetria joga com a natureza deslizante da linguagem e dos conceitos, no tablado ritualístico dos discursos.” (MARTINS, 1995, p. 26). De sua ligação intrínseca com o campo religioso negro,3 nasce Afrografias da memória, cuja primeira edição data de 1997. Nesse livro, a noção de oralitura, operador de leitura forjado por Leda Maria Martins, enlaça a palavra escrita com as vozes, cores e as melodias do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, em Minas Gerais:
Aos atos de fala e de performance dos congadeiros denominei oralitura, matizando nesse termo a singular inscrição do registro oral que, como littera. “letra”, grafa o sujeito no território narratário e enunciativo de uma nação, imprimindo, ainda, no neologismo, seu valor de litura, “rasura” da linguagem, alteração significante, constituinte da diferença e da alteridade dos sujeitos, da cultura e das suas representações simbólicas. (MARTINS, 2021a, p. 25).
Nos volteios conceituais pela encruzilhada e pela oralitura, adentramos essas Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo tela. Em seus ritornelos, as sete Composições que coreografam o livro enfocam e improvisam: I) o tempo curvo, para além a tirania de Chronos; II) as cronosofias em espirais de Áfricas; III) as poéticas da oralitura como poiesis do corpo-tela; IV) a gesta mitopoética dos Reinados; V) o canto-imagem Maxakali; VI) a poética vaga-lume do corpo-tela; VII) o fulgor do outro/letra no texto-dioniso de Rosa. Cada movimento, inflexão, nos conduz a operações conceituais de leitura que se configuram no modo como se desenha a escrita de Leda Maria Martins, entre a poética e a crítica. Experiência também espiralar de reflexão constelada por um aporte teórico denso, no qual se destaca o diálogo com as epistemologias negro-africanas, raramente referenciadas pelos teóricos ocidentais. Desse diálogo potente, saliento as vozes – para além da falsa dicotomia entre a oralidade e a escrita – de Jean-Godefroy Bidima, Grégoire Biyogo, Samuel Oluoch Imbo, Valentin-Yves Mudimbe, Honorat Aguessy, Kia Bunseki FuKiau, John Samuel Mbiti, Ngũgĩ wa Thiong’o, entre outros. Esse aporte teórico não hegemônico é friccionado ao de pensadores de tradições diversas, como Henri Bergson, Alfredo Bosi, Maurice Merleau-Ponty, Diana Taylor, Paul Zumthor, Paul Ricoeur, Édouard Glissant, Laura Cavalcante Padilha, Georges Didi-Huberman, Muniz Sodré. Porém, é preciso destacar que, como o bailado das palavras performance(s) e corpo-tela na capa do livro já denuncia, o saber também se recria pelos repertórios orais e corporais, gestos, hábitos dos rituais e dos inúmeros meios de cognição de natureza performática, sejam os atabaques na fala dos candomblés e da capoeira, os batuques dos Reinados, a lírica dos afetos Maxakali, as escrituras cênicas dos coletivos teatrais negros, o texto onceado de João Guimarães Rosa.
“No corpo o tempo bailarina” (MARTINS, 2021b, p. 21), dança a palavra,4 canta o gesto em uma episteme que faz ressoar um desenho da voz, um prisma de dicções, uma caligrafia rítmica, uma cadência que convida o leitor a um adensamento do pensamento que (nos) constitui o acervo africano de saber.
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Notas
1. Não vão nos matar agora, de Jota Mombaça, foi o primeiro livro da coleção a ser publicado.
2. A pesquisa seria publicada em livro, no ano de 1991, pela editora da UFMG e Imprensa Universitária da UFOP, com o título de O moderno teatro de Qorpo Santo.
3. Leda Maria Martins é também Rainha de Nossa Senhora das Mercês da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário no Jatobá, em Belo Horizonte.
4. “Numa das línguas Banto do Congo, o Kicongo, o mesmo verbo, tanga, designa os atos de escrever e de dançar, de cuja raiz deriva-se, ainda, o substantivo ntangu, uma das muitas designações do tempo, uma correlação plurissignificativa.” (MARTINS, 2021b, p. 81).
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Leonardo Francisco Soares
Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil
leonardofranciscosoares@gmail.com