top of page
LEDA_trocas.jpg

Entrevista por Pedro Kalil (Coleção Arte e Teoria)

Eu gostaria de começar falando sobre sua prática de escrita, tanto teórica quanto literária, e como essa prática não é marcada por uma fronteira entre o que é teórico e o que é literário ou poético.

Procuro sempre nos modos de elaborar meus pensamentos, evitar as dicotomias, todas elas. Assim, o poético e a teoria se atravessam nas minhas operações de escrita e nos meus modos de percepção. As dualidades excluem, separam, cindem, criam limites e fronteiras, restringem o pensamento e provocam cisões que cartografam não apenas a escrita, mas o próprio pensamento sobre o mundo e sobre o humano. Para mim, a atividade da escrita é sempre inclusiva, porosa, esgarçada, pelo menos como desejo de realização, sempre é composta por um traço da alteridade que a grafa e a constitui.

Eu sempre me assusto com perguntas que já trazem em seu bojo as dualidades, tais como poeta e ensaísta, as artes e as ciências, a acadêmica e a congadeira, pois pressupõem um processo de pensamento que ordena um certo modo de percepção, de construção mesma do saber que repete os sistemas de divisão e de exclusão. É uma perspectiva da qual derivam operações muito instáveis e limitadas para responder à diversidade de construção da escrita e de qualquer outra operação de linguagem sobre o mundo. Por isto talvez sempre fracassem. Vale lembrar a dolorosa constatação que paira em Macbeth: o ser não se define por isto ou aquilo, mas por ser isto e aquilo, de forma indissociável, pujante, constituinte das pluralidades e polissemias que nos atravessam. Zumthor diz que “a prática das oposições binárias resulta, na maioria das vezes, em derrisórias reduções idealistas”, o que resume também o que penso: as fronteiras limitam o próprio ato de pensar. Tentar manter essas dualidades, para mim, vai ser felizmente sempre um fracasso.

Então, escrever pode ser entendido como uma forma de pensar?

Escrever, do modo como eu me relaciono com a escrita, é sempre pensamento. Ela não traduz um pensamento, ela é pensamento. Neste sentido, a escrita pode tomar várias formas, e isso é algo da ordem de um fracasso. Talvez também por isso essa grande angústia do artista em geral, essa consciência do fracasso. Em tudo que escrevo há sempre na escrita um exercício poético. Sempre. A escrita, para mim, é exercício poético. Entretanto, a mais pura poesia, para mim, está na matemática.

A matemática foi uma das minhas grandes paixões. Digo foi porque meu primeiro desejo intelectual era trabalhar com a matemática pura. Ser uma pesquisadora da matemática pura. Talvez porque exista ali toda uma elaboração teórica, abstrata, que é poética. Acho que a poesia e a matemática promovem um encontro dos mais belos. A minha mente é um pouco matemática: a forma como eu trabalho as minhas elucubrações de escrita, qualquer que seja o âmbito em que elas se dão, qualquer que seja o assunto sobre o qual eu esteja escrevendo, em tudo tem matemática. A preocupação que eu tenho com a minha escrita é a mesma obsessão que eu tinha quando me deparava com um teorema, uma equação, uma operação aritmética, geométrica, que me desafiava, e cuja irresolução me deixava extremamente frustrada, mas cujo desafio me levava adiante, de forma prazerosa, instigante. Muitas vezes, eu resolvia todos os problemas que ali se colocavam e chegava a uma aparente resolução, e aí, em algum momento, eu constatava algo estranho no raciocínio. Eu voltava ao teorema, eu voltava à equação e tinha gosto por isso.

O mesmo gosto que eu acho que tenho, e que não é simples- mente um gosto de um gozo, de um prazer assim bucólico, mas de você realmente enfrentar o fracasso, tendo ciência dele, de você buscar, de certa maneira, trabalhar com ele. Matemática é teoria. E eu sou uma pessoa que gosta muito da teoria. A teoria não te dá respostas conclusivas. A teoria mais instigante é aquela que não te constrói respostas, ela te dá possibilidades de reelaborações, transcriações e até mesmo subversões.

Acho que todas as suposições da matemática, dos cálculos, das grandes equações, dos teoremas não resolvidos são perquirições complexas que não se contentam com soluções simples. Nelas, o pensamento só se contenta com a operação de tentativa de construção da resolução que é em si mesma uma criação, um desejo criativo, um pulso de criatividade, uma pulsão, inclusive estética.

Há alguma coisa que é da ordem da escrita e talvez seja também da natureza de toda a arte, do processo de elaboração artística, que é da ordem do fracasso. Mas, como o fracasso faz parte de toda a construção, acho que o exercício da escrita é sempre um exercício do fracasso, é sempre alguma coisa que, na ordem de uma produção, nunca acaba, nunca termina, ainda que se refine. O artista é aquele que sempre fracassa. Eu não gosto de reler os meus textos já publicados, justamente porque eu me deparo com o fracasso.Seja em termos das elaborações teóricas, seja em termos da ficção, da poesia, há sempre alguma coisa ali que parece solicitar mais atenção, mais operação de escrita. No entanto, há um momento em que você precisa colocar um ponto-final, ainda que provisório, ou mesmo um ponto de interrogação ou reticências. Gosto muito dos textos que nos incitam a pensar e escrever com eles; na linha em que Roland Barthes denomina o texto ficcional mais instigante, o escriptível. Um texto que te solicita a continuar vorazmente a leitura, mantendo um estado de frequência, vibração e alumbramento; uma leitura que resiste ao seu término e que solicita uma reescrita pelo próprio leitor. É um nunca querer acabar. Leitura que quer permanecer como escritura. Essa leitura faz durar o exercício da escrita, que é um exercício de pensamento, de criatividade, de entrada e expressão do imaginário.

=============

A entrevista completa foi publicada pela coleção ARTE E TEORIA (Relicário Edições), que busca refletir sobre as ligações entre a produção artística e teórica de importantes nomes da arte de Belo Horizonte, percorrendo suas obras e ideias. As entrevistas foram realizadas pelo escritor, pesquisador e professor Pedro Kalil, idealizador da coleção em parceria com a Napele Produções Artísticas.

Leda Maria Martins recebeu o escritor e a equipe do projeto em seu apartamento, em janeiro de 2020, para o início dessa conversa que seguiu por alguns meses. Nesses encontros, conversaram sobre a oportunidade de refletir sobre a sua produção como poeta, teórica e pesquisadora, revisitando alguns dos conceitos chave de seu pensamento, assim como os diálogos estabelecidos com outros saberes.

arte_e_teoria_edited.png
bottom of page