
De Pedro Rena para Leda Maria Martins
a certeza mais segura
Belo Horizonte, 25 de junho de 2020.
Querida Leda,
Nunca me esquecerei quando, logo no começo da minha graduação, entrei na sala de aula para assistir seu curso sobre o Teatro do absurdo, sem ter a mínima ideia do que esperar daquele assunto. Cheguei um pouco depois da hora marcada. A sala estava lotada e por pouco não encontrei lugar para me sentar.Depois de terminar de fumar seu cigarro do lado de fora, você se colocou em pé ao lado mesa e começou a falar, com muita elegância, sobre Beckett, Artaud e outros absurdos. Enquanto isso, no mundo lá fora, o absurdo de nossa política aumentava a cada dia que se passava.
Você nos ensinava — tento relembrar agora com a ajuda de minhas anotações — que o absurdo não era apenas a temática que esses autores tratavam, o absurdo se materializava na própria estrutura das obras, como se os autores nos fizessem experimentá-lo através dos recursos da linguagem e da encenação. O nonsense, o estranhamento, a repetição, a inutilidade, a solidão, o presente contínuo e circular. Um teatro sobre a ruína da linguagem comunicativa, sobre a falência das utopias modernas no pós-guerra. Sobre a fratura da linguagem, da memória, do discurso, da cena, do sujeito. Personagens sem memória, sociedades sem memória. Personagens confinados, enclausurados, soterrados, paralisados, imobilizados, vivendo ironicamente “dias felizes”. Um mundo esvaziado de referências e ideais. A espera como a única referência: e “não há sequer possibilidade de fugir da espera”, você nos dizia. A angústia da consciência de que não há nenhuma saída possível, nem mesmo o suicídio. Lembro que você sempre dizia que, mesmo diante da total falta do sentido da vida, Beckett ainda criava, ainda escrevia, mesmo se fossem textos sobre o completo absurdo. Como escreve Nuno Ramos:
As personagens agora já não foram propriamente nada — estão. Como não se sabe de onde vêm, podem ser tudo. Na verdade, são o que dizem que são, sem prestar contas a ninguém, nem à cultura, nem à história. Coincidem com o que dizem, e daí o pulo para a cena e o palco. Daí também sua estranha ambiguidade: absolutamente negativas, travadas, querendo não ser —
mas ainda assim tão presentes e assertivas.
Diante deste triste momento que estamos vivendo agora, escrevo para te ouvir sobre o que tem pensado sobre isso tudo,“sem respostas fáceis”, eu sei,relembrando essas aulas e essa literatura que tanto nos dizem sobre o nosso contemporâneo. Impossível não pensar no que estamos vivendo nos dias de hoje em comparação com todas essas questões estéticas e políticas do Teatro do Absurdo, como elas nos instigam tantas reflexões pertinentes nos dias de hoje. Parece que vivemos agora — como em uma repetição dos tempos — em uma pura espera. Talvez uma espera constante pelas próximas catástrofes — de diversas ordens — que ainda estão por vir e que podem chegar a qualquer momento.
Três anos depois dessas aulas, te convidei para comentar o filme sobre o Torquato Neto na Mostra 68 e depois, e você aceitou na mesma hora. Torquato, aquele poeta que escrevia versos tão inquietantes, que exclamava em meio ao regime militar “aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo”, ao mesmo tempo aquele poeta que dizia frases tão bonitas e cheias de vida, como “a coisa mais linda que existe é ter você perto de mim”.
No dia da sessão, alguns minutos antes da exibição do filme, Pedro Paulo me surpreendeu com um texto quase esquecido de Glauber Rocha sobre “O suicídio de Torquato Neto”. Um texto, como Artaud diria, sobre um “suicidado pela sociedade”. Fui correndo atrás de você nos jardins internos do Palácio para perguntar se aceitaria o desafio de lê-lo de improviso depois que a projeção terminasse. E você respondeu prontamente que sim. Depois do filme, as luzes do cinema se apagaram e subimos no palco, imersos na escuridão. Tremendo, eu segurava uma lanterna que te iluminava lateralmente. Ao longo de treze minutos, você leu com tamanha força e confiança aquela tão carta explosiva. No debate, você nos falava de Torquato como alguém que excedia a sociedade, a vida, a linguagem, o próprio filme. Alguém que tinha horror à miséria da linguagem. Alguém que “destrói a linguagem e se explode com ela”. Alguém que levava a linguagem ao seu ponto de absurdo.
Em meio a todo desespero do contexto político da época do debate — época da prisão de Lula, da greve dos caminhoneiros, da ascensão das forças da extrema-direita no país — perguntei a você: “O que fazer? Como reagir frente à esta sombria conjuntura?”. E você me respondeu, com tanta beleza: “A certeza mais segura que mais dia, menos dia, Pedro, no peito de todo mundo, vai bater ainda, a alegria. Há que suicidar a linguagem para que o poético sobreviva. Talvez tenhamos que suicidar as respostas fáceis, para que a nossa esperança permaneça.”
Um beijo!
Pedro.
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Pedro Rena é doutorando em Literatura Comparada pela UFMG, com a pesquisa intitulada "Uma poética do olhar: Drummond e o cinema". É mestre em Comunicação Social, na linha Pragmáticas da Imagem e formado em Letras pela UFMG. Realizou a curadoria das mostras "68 e depois" (2018) e "Drummond e o cinema" (2024), ambas no Cine Humberto Mauro.