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Quando escrever sou eu em totalidade: Leda Maria Martins na travessia do olhar, por Roberta Aleixo

Outubro de 2021

Eu não sou poeta, mas aprendi a tecer, construir pontos (de crochê), dar forma a partir do movimento, do tempo do fazer e do refazer,  do  fazer  e  do  desfazer.  Meus  modos e práticas, civilizadores de mim, adentram o espaço acadêmico, onde em silêncio e conversa parto seguramente para costurar meus olhares sobre o mundo.

 
As  minhas  elaborações  estéticas  e  contra-estéticas  (GILROY,  2001)  surgem  dos  espaços  que  me  levaram  até  lá:  o  terreiro,  o  samba e a música de meu pai que me embalam  e  me  guiam  na  construção  de  cada  olhar e de cada palavra que começa no sentido – ouvidos, mãos, pernas e braços. Meu encontro  com  Leda  foi  a  possibilidade  de  asseverar  esse  espaço  uno,  desprovido  de  demarcações e diluições. 


Ao  me  deparar  com  Leda  Maria  Martins,  sua poesia me arrebatou, seus encontros e olhar para o corpo negro, para memória e suas  possibilidades me  conduziram  sensivelmente  aos  meus  lugares.  Eles  tracejaram um caminho ao meu pai, seus discos e suas histórias e a minha mãe e seus ensinamentos. A relação familiar não é o ponto de chegada nem o de partida, mas o elemento contínuo de quem sabe onde está e de onde jamais se desprenderá. A leitura de Leda é o percurso de alguém que observa em palavras e gesto esse não desgarrar de si. 


Certamente o movimento que tece as palavras surge dos quadris, princípio orientador para minha relação com o mundo. Pés, quadris, braços e pernas constroem esse movimento sinuoso. Entretanto, não se encerra nesse lugar. O corpo, produtor de uma textualidade escrita no gesto grafa em outros modos  os  instantes  atravessados  entre  si.  Carrego nele esse movimento pendular de “lembrança e esquecimento, origem e perda”  (MARTINS,  2002,  p.  71)  configurado  em tempo e espaço. 


A força dos espaços atravessadores e constituintes  -  bailes,  festas,  terreiros  -  se  consumaram e se consumam nos territórios de louvação e orientação política, social, existencial, filosófica e estética. Certamente eles comungam e partilham esse espaço chama-do corpo e me fornecem o agora.


Esse  corpo  explorado  nas  suas  possibilidades  de  movimento  e  som,  voz,  conduz  a  percepções  e  colaborações  semânticas  e  sígnicas: os itãs, os pontos, as palavras residentes  na  língua  (iorubá)  -  herança  real  e sensível de quem vive essa constante travessia - e das canções, samba, funk, pagode, que me investe de uma sabedoria e sapiência na construção político-social e estética - “Somos herança da memória. Temos a cor da noite. Filhos de todo açoite. Fato real de nossa história.” (ARAGÃO, 1992)


O  espaço  e  o  tempo  surgem  sob  perspectivas lineares outras – atravessados, deslocados movem e provocam a descentralização. Espiralados e materializados em formas temporais investidas de uma continuidade torna-se um caminho possível para perce-ber aquilo que passa/passou e que atravessa deixando marcas, sabores e cores.


Essa dimensão sensível que ultrapassa o escrever  e  não  se  inscreve  unicamente  num  quadro  demarcado  e  delimitado  é  certamente a herança produzida por Leda, que sabiamente já anunciava que a sua produção escrita,  ultrapassava  esse  limite  e  chegava  aos  sentidos  (MARTINS,  2005).  Portanto,  parti do desejo de escrever algo que saísse de meus pés, de meu corpo e que alcançasse essa dimensão totalizante e não apartante  que  é  produzir  um  texto  em  que  eu  ao  menos tentasse dar conta da travessia que é Leda Maria Martins em meus olhos.
Em  suma, esse  recorte/relato  é  orientado  pela poeta, ensaista, congadeira, dramaturga Leda Maria Martins e suas proposições, conhecimento  e  elaborações  sobre  tempo,  corpo, memória, teatro e performance negra. Seu direcionamento e olhar para escrita me conduziram a pensá-la enquanto existente no gesto, movimento e som. Escrever sou eu em totalidade.


O  que  ocorre  é  que  às vezes  palavras  surgem exigindo sentindo - ouvidos, olhos, nariz, boca, corpo e movimento. Outras vezes elas se fazem sentido, corpo e densidade. Aí elas chegam à língua que lhe rasga, embalsama com uma saliva saborosa e lambe os ouvidos. As palavras surgem como peso, ardência e cores aos olhos embalando o sono que  se  anuncia  na  tranquilidade  do  amanhã que chega. As palavras vão se juntando em um silêncio capaz de criar um tempo/espaço próprio de quem em memória, lembrança, fantasia, amor e dor faz dança.


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Roberta Aleixo era mestranda   em   Artes (PPGARTES/UERJ), pesquisadora e professora de Artes Visuais e  graduanda  em  Comunicação  Social quando publicou este texto na REVISTA AÚ, editada pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros do DEGASE – NEAB-D, um setor da Divisão de Projetos e Programas em Equidade - DIVPPE, vinculado à Escola de Gestão Socioeducativa Professor Paulo Freire – ESGSE, órgão do Departamento Geral de Ações Socioeducativas – DEGASE.

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