
Resenha do livro Performance do tempo espiralar – poéticas do corpo-tela, por Sofia Boito
Esta resenha se debruça sobre o novo livro da pesquisadora Leda Maria Martins, publicado pela editora Cobogó, em 2021, no qual a autora desenvolve conceitos em torno do tempo e do corpo nas práticas performáticas afrodiaspóricas. O texto pretende demonstrar de que maneira as análises da autora contribuem para a concepção de instrumentos teóricos decoloniais para as artes da cena.
Palavras-chave: Decolonialidade, Afrodiáspora, Oralitura, Teoria da performance, Artes cênicas contemporâneas.
Performance do tempo espiralar - poéticas do corpo-tela - de Leda Maria Martins, é uma publicação da Editora Cobogó, lançada em 2021 dentro da coleção Encruzilhada – coordenada por José Fernando Peixoto de Azevedo.
O intuito dessa coleção, como o próprio coordenador expõe em seu texto de apresentação, é vislumbrar outras formas de conhecimento e imaginar novas alternativas ao mundo capitalista: “O antirracismo, os feminismos, o anticolonialismo, e reconfigurações imprevistas de classes em guerra, momentos da teoria crítica em movimento e outras formas de negação pautam nosso encontro” (AZEVEDO, 2021 apud MARTINS, 2021, p. 254). A obra de Martins compõe esse conjunto trazendo um pensamento singular atravessado pelas ciências, culturas e artes de povos africanos e de comunidades afrodiaspóricas, a fim de reinventar e redefinir instrumentos teóricos das Artes Cênicas performativas sob a lente decolonial.
Pesquisadora nas áreas de performance e literatura, atualmente professora na Universidade Federal de Minas Gerais, Leda Maria Martins desenvolve pesquisa em torno do Reinado1 desde os anos 1990. Foi ao longo dessas investigações que a autora cunhou o conceito central de sua obra teórica: a oralitura. Tal noção (con)funde as categorias modernas de escrita e oralidade, texto e imagem – normalmente tidas como dicotômicas pela ciência eurocêntrica.
Conceitual e metodologicamente, oralitura designa a complexa textura das performances orais e corporais, seu funcionamento, os processos, procedimentos, meios e sistemas de inscrição dos saberes fundados e fundantes das epistemes corporais destacando neles o trânsito da memória, da história, das cosmovisões que pelas corporiedades se processam. E alude também à grafia desses saberes, como inscrições performáticas e rasura da dicotomia entre oralidade e escrita. (MARTINS, 2021, p. 41)
Fundando seu pensamento na negação de tal dicotomia, a pensadora se posiciona contra um sistema de opressão e massacre epistemológico – o braço teórico dos processos de colonização, escravização e genocídio nas américas: “A civilização da escrita, do livro, se impunha, como se fora única, verdadeira e universal em seu desejo de dominação e de hegemonia […] E visava ao desaparecimento simbólico ou literal do outro, seu apagamento” (MARTINS, 2021, p. 35).
Apesar disso, o que Martins nos mostrará ao longo de sua obra é que, apesar do que querem nos fazer crer os discursos hegemônicos e racistas, essa política de apagamento não foi bem-sucedida. A autora afirma que colonizados(as) e escravizados(as) mantiveram, desenvolveram e transmitiram suas epistemes a partir de práticas performáticas, constituindo uma pletora de conhecimento que se inscreve ainda hoje no mundo de maneira cinética e sinestésica.
Apesar de toda a repressão, o que a história nos ostenta é que, por mais que as práticas performáticas dos povos indígenas e dos africanos fossem proibidas, demonizadas, coagidas e excluídas, essas mesmas práticas, por vários processos de restauração e resistência, garantiram a sobrevivência de uma corpora de conhecimento que resistiu às tentativas de seu total apagamento […].
Ainda que oprimidos, censurados, cerceados e perseguidos, os povos escravizados encontraram maneiras de elaborar e retransmitir saberes e valores das culturas africanas a partir de códigos “sensoriais, visuais, cinéticos, olfativos,
gustativos, repleto de música e dança” (MARTINS, 2021, p. 118).
A cultura negra nas Américas é de dupla face, de dupla voz, e expressa nos seus modos constitutivos fundacionais, a distinção entre o que o sistema social pressupunha que os sujeitos deviam dizer e fazer, e o que por inúmeras práticas, realmente diziam e faziam. […] Nas Américas, as artes, os ofícios e o saberes africanos revestem-se de novos e engenhosos formatos. […] Nesse ambiente de reminiscências, os Reinados negro, por exemplo […] restauram toda uma plêiade de procedimentos mnemônicos e de técnicas estilísticas por meio das quais alguns dos mais preciosos princípios filosóficos africanos são reprocessados e inscritos na formação etnocultural brasileira […]. (MARTINS, 2021, p. 116)
Olhar para essas práticas como a atualização de epistemes que resistiram ao massacre europeu é um gesto não apenas conceitual, mas político. Como afirmaria a argentina Maria Lugones, outra grande pensadora decolonial, é necessário compreender as práticas cotidianas e festivas de comunidades colonizadas como uma forma de (re)existência: “em vez de pensar o Sistema global capitalista colonial como exitoso em todos os sentidos na destruição dos povos, relações, saberes e economias, quero pensar o processo sendo continuamente resistido e resistindo até hoje” (LUGONES, 2014, p. 942). Através do Reinado negro, por exemplo, Martins nos mostra como o ritual possibilita a alteração da ordem cotidiana, subvertendo a hierarquia social de dominador-opressor, ainda que de maneira simbólica. “A linguagem os tambores, sopro dos antepassados, investida de um éthos divino, agencia os cantares e a dança, de forma oracular, prenuncia uma subversão da ordem social, das hierarquias escravistas e dos saberes hegemônicos” (MARTINS, 2021, p. 123).
Em Performance do tempo espiralar, a autora desdobra seu pensamento, deixando de focar apenas no Reinado, levando-o para outros horizontes. Na obra, ela inclui análises e reflexões sobre trabalhos de performance art,
obras das artes cênicas contemporâneas, além de rituais dos indígenas Maxacali e de manifestações culturais de povos como o Iorubá. Para isso, a autora articula conceitos provenientes de diferentes campos e culturas em
uma escrita densa, fluida e poética, que deixa entrever seus conteúdos teóricos em sua estrutura formal. Dividido em sete partes chamadas de “movimentos” e um epílogo intitulado Ntunga, o livro é atravessado por um sopro poético,
cheio de retomadas, ritornelos, depoimentos em primeira pessoa, assim como citações de provérbio africanos. Constrói-se, assim, um pensamento que não exclui a corporeidade daquela que escreve. Seu próprio engajamento
no Reinado, enquanto rainha de Nossa senhora das Mercês da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário no Jatobá, em Belo Horizonte, já revela de que maneira a pesquisadora constitui sua pesquisa como um “pensamento corpo”,
não se furtando a conceber sua reflexão como parte integrante de sua experiência de mundo. Faço aqui essa análise, traçando um paralelo entre o gesto da autora e o gesto que ela própria identifica na cena teatral negra recente
no Brasil. Segundo Martins, a partir do momento em que os corpos negros se colocam em cena, eles o fazem enquanto um gesto que não é apenas poético, mas político; não é apenas estético, mas ético; não é apenas artístico, mas conceitual. O corpo produz pensamento.
A experimentação com linguagens transdisciplinares e transversais revela atitudes e mudanças de protocolos e de calores estéticos e éticos. Nessas poéticas, a corporeidade negra como subsídio teórico, conceitual e performático, como episteme, fecunda as cenas expandindo os escopos do corpo como lugar e ambiente de produção e inscrição de conhecimento, de memória, de afetos e de ações. Um corpo pensamento. […] Um corpo político, autofalante, arauto do ainda não dito ou repetido, porque antes interditado, censurado, excluído […]. (MARTINS, 2021, p. 162)
A corporeidade, portanto, é agenciadora, articuladora e transmissora de conhecimento. Nesse sentido, os cantos, movimentos, danças e indumentárias compõem um saber que é apreendido pelos órgãos sensíveis. É assim, de maneira expandida, que Martins concebe as imagens: “imagens também podem ser sonoras e cinéticas e essas qualidades são contíguas […]” (MARTINS, 2021, p. 77). O corpo-tela seria, logo, esse corpo-imagem que produz pensamento. Um corpo hieróglifo, um corpo ideograma.
Complexo, poroso, investido de múltiplos sentidos e disposições, esse corpo, física, expressiva e perceptivamente é lugar e ambiente de inscrição de grafias do conhecimento, dispositivo e condutor, portal e teia de memórias e de idiomas performáticos, emoldurados por uma engenhosa sintaxe de composições. (MARTINS, 2021, p. 79)
Quando o conhecimento é construído e transmitido pelo corpo, enquanto imagem em movimento, ele se atualiza no momento mesmo do ato performático. Retoma-se saberes e valores dos antepassados – a memória construída e transmitida na aprendizagem do rito – ao mesmo tempo em que se movimenta para frente, contribuindo para a construção do conhecimento futuro daqueles que estão presentes e, mesmo, dos que estão por vir. O “tempo espiralar” é, portanto, esse continuum no qual não se distingue passado, presente e futuro de maneira estanque. É um tempo diferente do linear e histórico concebido pela episteme europeia. É uma temporalidade que se funda num evento/acontecimento do intenso agora, em que todas essas instâncias se contaminam. “Todo processo pendular entre a tradição e sua transmissão institui um movimento curvilíneo, reativador e prospectivo que integra sincronicamente, na atualidade do ato performado, o presente do pretérito e do futuro” (MARTINS, 2021, p. 83). Sob essa ótica, a autora nos apresenta uma importante concepção de tradição, muito diferente daquela que a entende como uma manifestação cultural estática, própria do “folclore”. Pelo contrário, segundo a perspectiva de Martins, a tradição está em constante movimento, não se fixa, respira junto com os corpos que a constituem, dança entre a permanência e a transformação.
Como podemos observar na complexa teia costurada pela autora ao longo de seu livro, diversas categorias dicotômicas da episteme ocidental são colocadas em xeque a fim de constituir uma teoria com alicerces em outras
lógicas, não binárias. Esse pensamento decolonial, no entanto, possui diversos pontos de contato com as teorias da performance e das Artes Cênicas contemporâneas ocidentais2. Suas semelhanças não são mera coincidência, visto que a performance art e as artes cênicas performativas buscam mesmo descontruir cânones modernos. Aliás, é muito interessante observar que Martins não nega esses pontos de semelhança, pelo contrário, em vários momentos sua reflexão também se apoia em conceitos e noções do campo da Filosofia, performance e literatura eurocêntricos, mas esse resgate não se dá sem contaminações e atravessamentos que re-contextualizam esses pensadores sob a ótica de um pensamento decolonial. Nesse sentido, vemos surgir instrumentos teóricos singulares, próprios de uma perspectiva do Sul do mundo, que podem ser utilizados na análise de diversos atos performáticos – tradicionais ou contemporâneos – no Brasil e em outros países com passado colonial.
Em um mundo acadêmico e teórico ainda hegemonicamente branco e extremamente eurocentrado, as pesquisas de Leda Maria Martins não se configuram apenas como uma importante contribuição teórica para o campo das Artes Cênicas, mas também se afirmam como um posicionamento político fundamental.
Referências bibliográficas
FISCHER-LICHTE, E. The transformative power of performance: a new aesthetics. Abingdon-on-Thames: Taylor & Francis, 2008.
LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, p. 935-952, 2014. DOI: 10.1590/%25x.
MARTINS, L. M. Performance do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
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1 Em 1997, foi publicada a obra Afrografias da memória – o reinado do rosário no jatobá, pela editora Perspectiva, no qual a autora apresenta o estudo citado. Também em 2021, coincidentemente ou não, o livro foi reeditado pela Perspectiva.
2 A pensadora alemã Érika Fischer-Lichte (2008), por exemplo, discorre longamente sobre a extinção das dicotomias binárias na performance art em sua obra The transformative power of performance.
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Sofia Rodrigues Boito
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGAC/ECA-USP). Atriz, dramaturga, escritora e performer.