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Mnemosine

Eu não vi quando amanheceu

e não ouvi o canto das lavadeiras

madrugada afora seguindo o rio.

- Eu não estava lá.

Eu não vi quando vergaram as árvores

e fecharam os dias

Nem quando recortaram as serras

de antenas elétricas eu vi.

Disseram-me

- Mas eu não estava lá.

A memória da minha ausência

lembra os anciãos nas veredas das noites

luarando cantinas serenas

fazendo sonhar as meninas quase moças.

Eu não vou os últimos acordes

e não presenciei os suspiros

da infanta já feita senhora.

Passam autos velozes pelos calendários

mas nem mesmo quando chegou o primeiro comboio

e que todos se pintaram de novo eu vi.

-  Sequer me apresentei.

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Poema publicado originalmente no livro Os dias anônimos (1999)

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