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Solstício

Nem sempre

os subúrbios da noite 

foram assim tão vastos

e os movimentos dos olhos 

assim tão tênues.

 

Nem sempre nem sempre

os signos da dor 

figuraram só brumas

e o sossobrar dos passos

acanharam-se tanto.

 

Os resíduos do verbo

encenam os tempos da memória

tessitura imaginária

de estranho e familiar desejo.

 

Nos subúrbios da noite

minha ilusão bordeja 

e nas franjas do real

uma fala ébria se alucina

e chacina as alíneas do tempo.

 

Toda história é sempre 

sua invenção

qualquer memória é sempre 

um hiato no vazio.

 

E os subúrbios da noite

tecem-se no intervalo dos becos 

nas relíquias e ruínas do futuro 

nos edifícios da desmemória

que produzem sombras

sob as luminárias.

 

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Poema publicado originalmente no livro Os dias anônimos (1999)

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